domingo, 24 de maio de 2026

As Moedas Comemorativas ao 1º Centenário da Independência do Brasil

  As Moedas Comemorativas ao 1º Centenário da Independência do Brasil 

No início da década de 1920, o mundo buscava se reconstruir sobre os escombros da Primeira Guerra Mundial e sob o trauma da Gripe Espanhola, enquanto o Brasil vivia o desgaste do modelo agrário da República Velha e o despertar de novos movimentos sociais e culturais. Nesse cenário de transição, Epitácio Pessoa, 11.º presidente do Brasil (1919–1922), assumiu o cargo após ser eleito enquanto chefiava a delegação brasileira na Conferência da Paz em Versalhes. Durante seu governo, buscou equilibrar a modernização da infraestrutura e o combate às secas no Nordeste com as grandiosas celebrações do Centenário da Independência, ao mesmo tempo em que enfrentava o crepúsculo da "Política do Café com Leite" e as tensões militares que culminariam na Revolta do Forte de Copacabana.

Notas:

1A Revolta do Forte de Copacabana, ocorrida em 5 de julho de 1922, foi o primeiro grande levante do movimento tenentista no Brasil, marcado pela ação dos “18 do Forte”, que saíram do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, em confronto contra as forças do governo federal.

2- A Gripe Espanhola, ocorrida entre 1918 e 1920, foi uma pandemia devastadora causada por uma variante do vírus influenza que se espalhou rapidamente ao final da Primeira Guerra Mundial, provocando milhões de mortes e impactando profundamente o Brasil, onde vitimou o presidente eleito Rodrigues Alves; esse trágico evento forçou a realização de uma eleição suplementar em 1919, vencida por Epitácio Pessoa. 

3- A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial foi formalizada em 26 de outubro de 1917, após uma escalada de tensões iniciada pelo torpedeamento do navio Paraná em abril daquele ano, o que levou o governo de Venceslau Brás a retaliar com o confisco de cerca de 45 navios alemães retidos em portos nacionais e, diante de novos ataques a embarcações como o Macau, a declarar guerra à Alemanha; como país aliado, o Brasil participou da Conferência de Paz de Paris, realizada entre janeiro e junho de 1919, que resultaria no Tratado de Versalhes, onde Epitácio Pessoa, então senador e chefe da delegação, destacou-se nas negociações internacionais, consolidando a projeção política que resultou em sua eleição à presidência da República ainda enquanto estava na Europa.

As comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil, realizadas em 1922, constituíram um marco simbólico e político de afirmação nacional, reunindo no Rio de Janeiro, então capital federal,  uma série de eventos grandiosos, como exposições internacionais, obras de modernização urbana e demonstrações tecnológicas, entre elas a primeira transmissão de rádio no país, durante o governo de Epitácio Pessoa.

Oficialmente decretadas pelo governo federal, essas celebrações envolveram um planejamento minucioso que incluiu festas cívicas por todo o país e a Exposição Internacional do Centenário, que transformou a orla carioca com pavilhões suntuosos. O esforço de memória nacional contou com reformas estruturais em instituições como o Museu Histórico Nacional e o vultoso investimento em obras monumentais, como o Monumento à Independência em São Paulo, cujo projeto do escultor Ettore Ximenes custou isoladamente 1.300$ contos de réis (este valor nos dias de hoje ultrapassaria os 130 milhões de reais), fazendo parte de um plano de urbanização do bairro do Ipiranga orçado em quase 12 mil contos (algo próximo a de 1,5 bilhões de reais)

Sob a perspectiva da numismática, além de incluir a aprovação de orçamentos específicos para a confecção de medalhas exclusivas, moedas comemorativas e selos postais, as celebrações do Centenário foram planejadas como um resgate técnico e histórico do passado monetário brasileiro. Conforme noticiado pelo jornal O Paiz em 21 de março de 1921, o artigo "Os nossos primórdios numarios" menciona que a obra o "Livro do Centenário" dedicou um estudo profundo às origens numismáticas do país, um trabalho de erudição liderado pelo numismólogo Pedro Massena. Através de seu acervo de mais de 20 mil exemplares, Massena utilizou a numismática para decifrar a evolução das nossas moedas, resolvendo controvérsias sobre as primeiras emissões na Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco, além de documentar as peças holandesas e hispânicas que circularam no período colonial.

Reportagem  Os nossos primórdios numarios publicada no jornal O Paíz de 21 de março de 1921.  (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

Esse olhar para a numismática como documento histórico foi reforçado pela necessidade de institucionalizar o conhecimento das moedas nacionais. Segundo a reportagem "Sobre o centenário" da sessão Echos e Factos públicada no jornal O Paiz de 9 de janeiro de 1922, o Congresso autorizou a Casa da Moeda a adquirir importantes coleções particulares, com destaque para a dos herdeiros do professor Domingos de Goes e Vasconcellos. Essa iniciativa visava sanar deficiências nos acervos oficiais e elevar a moeda, a medalha e o selo ao status de documentos que comprovavam o progresso da civilização brasileira.

Reportagem  Sobre o Centenário publicada no jornal O Paíz de 9 de janeiro de 1922.  (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

As despesas de crédito para avaliar esta Coleção foram mencionadas no Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922 segundo o Art. 123, inciso 10, parágrafos 1 e 2. 

    Art. 123. É o Poder Executivo autorizado:

  10. A mandar avaliar, na Casa da Moeda, a collecção de medalhas brasileiras pertencentes aos herdeiros do professor Dr. Domingos de Góes e Vasconcellos ou outras de numismatica nacional que lhe forem apresentadas, para, adquirir as mais importantes dellas que lhe forem offerecidas em condições mais vantajosas.

    § 1º A coleção adquirida será incorporada ao patrimônio nacional no gabinete de numismatica da Casa da Moeda, que remeterá á secção de numismática da Biblioteca Nacional todos os exemplares duplicados que não existirem nessa secção.

    § 2º O Poder Executivo abrirá, para esse fim, os necessários créditos.

No relatório apresentado como Relatório do Ministério da Fazenda 1923, a preocupação com a preservação da memória monetária brasileira fica evidente no Art. 693, (Capitulo IV, Da Contabilidade dos Diferentes Valores) do regulamento da contabilidade pública, que determinava o envio de exemplares raros e medalhas ao museu numismático da Casa da Moeda para catalogação. 

Art. 693. 

As moedas raras ou exemplares de medalhas artísticas ou comemorativas depois de registrados no caixa de diferentes valores,  deverão ser transferidas, mediante representação dos tesoureiros. para o museu numismático da Casa da Moeda, onde serão devidamente classificadas e catalogadas.

Em 1922, também foi avaliada a coleção de Pedro Massena, pela casa da Moeda, em 300:000$ (300 contos de réis). Sua coleção foi considerada o maior acervo numismático do Brasil, reunindo mais de 80.000 exemplares, dos quais 30.000 eram compostos exclusivamente por moedas, cédulas e medalhas brasileiras. Essa coleção somente foi oficialmente adquirida pelo Governo Federal em 1927 , por meio de crédito especial (o crédito foi liberado posteriormente, após seu falecimento).

Após o intenso trabalho de pesquisa e a consolidação dos acervos, o ápice das celebrações materializou-se no bolso dos brasileiros. As moedas comemorativas de 1922 não foram apenas meios de troca, mas medalhas de bolso que levavam a mensagem do Centenário para todo o território nacional. Produzidas em bronze-alumínio,  e prata (Até 1922, a última moeda produzida em prata havia sido cunhada em 1913) elas ostentavam o encontro histórico entre a Monarquia e a República.

As Moedas do 1º Centenário da Independência do Brasil

Neste artigo serão mostradas as moedas moedas lançadas em comemoração o 1º Centenário da Independência do Brasil em 1922.

O Decreto nº 4.182, de 13 de novembro de 1920Autoriza o Governo a fazer uma emissão de papel-moeda.

     Art. 2º Poderá o Governo applicar á cunhagem de moedas de quinhentos, mil e dois mil réis a prata que possuir e fôr adquirindo; este serviço será feito na Casa da Moeda.

*Neste decreto, estava previsto que todas as moedas comemorativas do centenário seriam cunhadas em prata.

      § 1º A despeza correspondente ao custo da prata será escriptada sob o titulo «Conversão de especie».

      § 2º A moeda subsidiaria que fôr cunhada só será posta em circulação depois que tiver sido incinerada igual quantia em papel-moeda.

*Mantendo a mesma quantidade do valor referente ao montante em circulação. 

O artigo trazendo noticias sobre o Ministério da Fazenda que analisava a proposta da empresa suíça Metalwerke Thun para a cunhagem das moedas comemorativas do Centenário da Independência do Brasil.

Trecho de reportagem trazendo noticias sobre o Ministério da Fazendo pública no jornal O paiz  2 de agosto de 1922

Nota: A empresa Eidgenössische Konstruktionswerkstätte Thun (frequentemente referida pela divisão de metais Metalwerke) Era uma fábrica federal de armamentos e metais da Confederação Suíça.

As moedas de 500 e 1000 réis de 1922

A Inovação do Bronze-Alumínio

Pela primeira vez, o Brasil utilizou o bronze-alumínio (uma liga de cobre e alumínio) em moedas de circulação comemorativa (nos valores de 500 réis e 1000 réis). Elas têm aquele tom dourado característico que as diferenciava das moedas de prata ou cupro-níquel da época.

A introdução das moedas de bronze-alumínio  nas comemorações de 1922 não foi apenas uma escolha estética para imitar o brilho do ouro, mas uma solução tecnológica para problemas crônicos da circulação monetária brasileira. Conforme esclarecido pelo Dr. Carlos Newlands em carta publicada na reportagem "Moedas de alumínio e Bronze" pelo jornal O Paiz em 16 de junho de 1922, a ideia de adotar essa liga no Brasil remontava a 1914, inspirada pelo sucesso de seu uso na França. O projeto visava substituir as pequenas notas de 1$000 e 2$000 réis, descritas por Newlands como "anti-higiênicas" e "repugnantes", que se degradavam rapidamente no manuseio diário e exigiam substituições caríssimas pelo Estado.

Diferente das moedas de alumínio puro utilizadas na Alemanha, que eram condenáveis por sua fragilidade e facilidade de falsificação, a liga de bronze-alumínio oferecia a vantagem de ser praticamente inoxidável e de grande duração. Sob o ponto de vista da aplicação monetária, o material mantinha um bom aspecto permanente, uma vez que a oxidação superficial era tão aderente e translúcida que apenas resultava em uma perda de brilho, tornando a moeda levemente fosca sem comprometer sua integridade.

Além disso, essas moedas apresentavam a vantagem estratégica de possuírem um baixo valor real em relação ao valor declarado. Por serem instrumentos de permuta para objetos de pequeno valor e trocos, elas não corriam o risco de serem acumuladas ou entesouradas pelo público, desempenhando integralmente as funções das antigas cédulas sem os inconvenientes da sujeira. Ao executar esse projeto, o governo dotou o país de uma moeda de "bello aspecto", razoavelmente leve e duradoura, livrando a população do contato com o papel-moeda desgastado e estabelecendo um padrão monetário mais econômico e sanitário para o Centenário.

Reportagem  Moedas de Bronze e Alumínio publicada no jornal O Paíz de 16 de junho  de 1922.  (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

 Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922 Proveu as despesas publicas no exercicio de 1922. E Autorizou a cunhagem de moedas de 500 e 1.000 réis de cobre-alumínio destinadas à comemoração do Centenário, seja no País, seja no estrangeiro.


Do Decreto nº 4.555 temos:

Art. 146. É o Poder Executivo autorizado:

A mandar cunhar, no país ou no estrangeiro, moeda de aluminio e cobre, dos valores de 500 réis a 1.000 réis, destinadas á comemoração do Centenário, as quais substituirão as notas de 1$000e 2$000, que serão incineradas.


Decreto nº 15.620, de 19 de Agosto de 1922 Autoriza a cunhagem no paíz ou, no estrangeiro de moedas de alumínio e cobre dos valores de $500 e 1$, destinadas á comemoração do Centenário da Independência.

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização constante da lei n. 4.555, de 10 de agosto corrente, art. 146,

DECRETA:

     Art. 1º Fica o ministro da Fazenda autorizado a abrir o credito de 4.800:000$. para cunhar no paiz ou no estrangeiro moedas de aluminio e cobre, commemorativas do Centenario da Independencia, com valor, peso e modulos seguintes:
Valor - Peso em grammas - Modulos em millimetros

     $500.................................................................................................................................... 4 22,5

     1$000..................................................................................................................................... 8 26,7


     Art. 2º As moedas terão uma liga, binaria composta do 91 % de cobre a 9 % de aluminio e serão serrilhadas.

     Art. 3º A tolerancia para mais ou para menos no peso e na composição da liga dessas moedas será, respectivamente, de 2% 1%.

     Art. 4º Estas moedas substituirão as notas de 1$ e 2$, que serão incineradas, feita a substituição em prazo razoavel fixado pelo Governo.

*No lugar das notas de 1$ e 2$ poderiam ser usados moedas de $500 e 1$000, ex.: duas moedas de $500 para 1$000 ou 2 moedas de $1000 para 2$000 réis. 

     Art. 5º Taes moedas não serão admitidas nem na receita nem na despeza das estações publicas, nem nos pagamentos entre particulares, salvo o caso de mutuo consentimento destes, senão até a quantia de 20$000.

A Circular nº :34 de 26 de agosto de 1922,  detalha a composição de bronze-alumínio das moedas de $500 e 1$000 réis. 

Ministério dos Negócios da Fazenda - Rio de Janeiro, 26 de agosto de 1922.

Declaro aos Srs. chefes das repartições subordinadas a este Ministério, para seu conhecimento e fins convenientes, que as novas moedas de alumínio e cobre, destinadas á Comemoração do Centenário da Independência do Brasil, dos valores de 500 réis e 1$, cunhadas em virtude da autorização contida no art. 146, n. I, do decreto n. 4.555, de 10 deste mez, pesam, respectivamente, quatro e oito grammas, medem 22,5 e 26,7 millimetros de modulo e tem os seguintes característicos:

Anverso — Ao centro os retratos conjugados do primeiro Imperador e do actual Presidente da Republica, encimados pelo « Cruzeiro do Sul » e ladeados pelas inscripções: « Acclamador da Independência — Pedro I e X Presidente da Republica — Epitacio Pessoa », e no enxergo a palavra « Brasil »

.Verso — Ao centro, o facho do progresso separa os emblemas da Monarchia e da Republica, que se vêem sobre duas palmas de louro, tendo, por baixo, as eras: — 1822 - 1922; superiormente, lê-se a inscripção: — 7 de Setembro — 500 réis ou 1$ e, circundando a orla  «Centenário da Independência».

As referidas moedas começarão a circular de 1 de setembro próximo futuro.

*Nesta circular não verificamos qualquer "." em Pedro I , e Acclamador e Presidente aparecem por extenso. Enquanto que na moeda lemos ACCLAM. e PRESID. estão abreviados e D. PEDRO I.  (E sua variante D PEDRO .I ) possuem ao menos um ponto ".", todas as inscrições estão em letras maiúsculas.  Também não foi mencionado o "." Após a letra X "X." (décimo). Um detalhe curioso, os únicos acentos que aparecem nas inscrições da moeda são (^)  no sobrenome do presid. E. Pessôa, no anverso e (´) em réis no reverso. 

Decreto nº 15.972, de 27 de fevereiro de 1923, autorizou o Ministério da Fazenda a abrir um crédito especial de 4.500:000$000 para a cunhagem de moedas de 500 e 1.000 réis em cobre-alumínio. Esta medida visava suprir a escassez de moedas de baixo valor, viabilizando as emissões autorizadas pelo Decreto nº 4.555.

Artigo único. Fica o Governo autorizado a abrir, pelo Ministerio da Fazenda, o credito especial de 4.500:000$000 (quatro mil e quinhentos contos de réis), para custear as despesas com a cunhagem de moedas de cobre e alumínio, de conformidade com a autorização constante do art. 2º, n. XI, da lei n. 4.632, de 6 de janeiro de 1923. (esta lei será comentada mais abaixo nas moedas de 2000 réis)


Moedas de $500 e 1$000 réis  

Moeda de $500

Material: Bronze Alumínio (Liga do material 91% Cu, 9% Al).
Diâmetro:  22,5 mm
Massa:  4,00 g
Espessura: 1,55 mm
Bordo: serrilhado
Eixo: Reverso Moeda


ANVERSO: Bustos de Dom Pedro I ao lado esquerdo e presidente Epitácio Pessoa ao lado direito, com Epitácio Pessoa ocupando a frente, indicando a ordem cronológica entre os dois lideres. Ambos os lideres aparecem em perfil apontando para a direita (lado esquerdo do observador) Os dois bustos são envolvidos na orla pela inscrição "ACCLAM. DA INDEPENDENCIA (separados por 2  * * estrelas  Beta Crucis e Gamma Crucis da constelação do Cruzeiro do Sul) X. PRESID. DA REPUBLICA. Ao lado esquerdo a inscrição de  D. PEDRO I. (Com variante D PEDRO .I) e ao lado direito a inscrição de Epitácio Pessoa.  No exergo a inscrição do Brasil. A orla apresenta um relevo regular que confere a aparência de “pérolas”


REVERSO: No centro, uma tocha acesa cruzada por dois galhos com folhas em forma de X que tem acima, à esquerda, a coroa imperial, símbolo da monarquia  e, à direita, o barrete frígio, símbolo da república. Os dois galhos, representando palmas de louro, e a tocha estão unidos por um laço que envolve suas hastes. Acima da tocha, sete feixes do lado esquerdo e oito feixes do lado direito simbolizam a distribuição da luz. Embaixo da coroa imperial, a data 1822, e embaixo do barrete frígio, a data 1922. Acima da tocha acesa 500 RÉIS em linha curva. No alto, acompanha a orla a legenda 7 DE SETEMBRO. Também acompanha a orla, da metade da moeda para baixo, a legenda 1º CENTENARIO DA INDEPENDENCIA. 



Nota: Na numismática clássica, a tocha simboliza a sabedoria e a vida através do mito de Prometeu, além de representar rituais sagrados e a fertilidade quando associada a divindades como Diana e Deméter em moedas gregas e romanas (confira aqui!).

Na moeda do Centenário de 1922, a tocha central pode significar a chama persistente da soberania brasileira, atuando como o elemento de luz que conecta o passado imperial ao presente republicano no centenário da nação.


Moeda de 1$000 

Material: Bronze Alumínio (Liga do material 91% Cu, 9% Al).
Diâmetro:  26,7 mm
Massa:  8,00 g
Espessura: 2,20 mm
Bordo: serrilhado
Eixo: Reverso Moeda


ANVERSO: Bustos de Dom Pedro I ao lado esquerdo e presidente Epitácio Pessoa ao lado direito, com Epitácio Pessoa ocupando a frente, indicando a ordem cronológica entre os dois lideres. Ambos os lideres aparecem em perfil apontando para a direita (lado esquerdo do observador) Os dois bustos são envolvidos na orla pela inscrição "ACCLAM. DA INDEPENDENCIA (separados por 2  * * estrelas  Beta Crucis e Gamma Crucis da constelação do Cruzeiro do Sul) X. PRESID. DA REPUBLICA. Ao lado esquerdo a inscrição de  D. PEDRO I. (Com variante D PEDRO .I) e ao lado direito a inscrição de Epitácio Pessoa.  No exergo a inscrição do Brasil. A orla apresenta um relevo regular que confere a aparência de “pérolas”. 


REVERSO: No centro, uma tocha acesa cruzada por dois galhos com folhas em forma de X que tem acima, à esquerda, a coroa imperial, símbolo da monarquia  e, à direita, o barrete frígio, símbolo da república. Os dois galhos, representando palmas de louro, e a tocha estão unidos por um laço que envolve suas hastes. Acima da tocha, seis feixes do lado esquerdo e seis feixes do lado direito simbolizam a distribuição da luz. Embaixo da coroa imperial, a data 1822, e embaixo do barrete frígio, a data 1922. Acima da tocha acesa 1000 RÉIS em linha curva. No alto, acompanha a orla a legenda 7 DE SETEMBRO. Também acompanha a orla, da metade da moeda para baixo, a legenda 1º CENTENARIO DA INDEPENDENCIA. 


Nota: Este anverso possui um efeito de cunho marcado

Efeito de Cunho Marcado no anverso

Como podem ter batido os cunhos:

Imagem mostrando anverso e reverso sobrepostos.

As imagens sobrepostas têm o intuito de indicar o local de onde surgiram os desenhos produzidos no cunho marcado, mostrando que os elementos marcados são, na verdade, o contorno dos desenhos originais do cunho oposto (sejam esses desenhos do anverso ou do reverso). No entanto, é importante entender que, durante a fabricação das moedas, os dois cunhos são espelhados, sendo utilizados cunhos do tipo fêmea (die) tanto para o anverso quanto para o reverso. Durante a batida dos cunhos, sem o disco, ficam registradas as marcas dos elementos corretamente estampados no cunho oposto, como se fosse a própria moeda. Dessa forma, quando esses cunhos voltam a atuar sobre um novo disco, os elementos acabam se tornando espelhados: o que está em alto-relevo no cunho passa a aparecer em baixo-relevo na moeda, e vice-versa.

A constelação do Cruzeiro do Sul

É muito difícil de perceber, mas a estrela Gamma Crucis (Gacrux),  também conhecida como Rubídea, na parte mais alta da moeda, é representada com seis pontas. No alto, à esquerda, encontra-se a Beta Crucis (Becrux ou Mimosa), com sete pontas. No lado superior direito está a Delta Crucis, também chamada de Pálida, com cinco pontas. Abaixo, à direita, localiza-se a Epsilon Crucis (Intrometida), conhecida como Ginan, com quatro pontas. Por fim, na parte inferior, destaca-se a Alpha Crucis, ou Estrela de Magalhães, representada com oito pontas.

Constelação do Cruzeiro do Sul na moeda de 500 réis a esquerda e 1000 réis a direita


Variantes das Moedas de 500 e 1000 réis com a Inscrição BBASIL. 

Existem variantes produzidas com a inscrição “BBASIL” em vez da inscrição original “BRASIL”. No catálogo Bentes, 9ª edição (2023), menciona-se que essas variantes podem ter sido cunhadas a partir dos primeiros cunhos preparados nas oficinas da Casa da Moeda. Naquele período, Augusto Giorgio Girardet exercia funções ligadas ao ensino de gravura na instituição e, devido ao intenso ritmo de trabalho durante a produção das moedas comemorativas, a correção do engano presente no modelo de gesso não teria sido realizada a tempo. Como consequência, o modelo contendo a inscrição incorreta acabou sendo empregado na fabricação dos cunhos. O catálogo também relata que o episódio teve repercussão negativa e teria contribuído para o posterior desligamento de Girardet da Casa da Moeda. 

Nota: Não encontrei informações que comprovam o desligamento de Girardet visto ao episódio da BBasil. 


Moeda de $500 BBASIL



A Variante D. PEDRO I. tem a inscrição BRASIL e variante D PEDRO .I tem a inscrição BBASIL.

Detalhes com a Diferença entre inscrições nas moedas de 500 réis, 



Inscrições  apresentadas nas moedas de 500 réis,  D. PEDRO I. (BRASIL)  e D PEDRO .I (BBASIL) 

Moeda de 1$000 BBASIL


Detalhes com a Diferença entre inscrições nas moedas de 1000 réis, 

 
                Inscrições  apresentadas nas moedas de 1000 réis,  D. PEDRO I. (BRASIL)  e D PEDRO .I (BBASIL)

Notas: 

Nas amostras fotografadas, observa-se diferença no tamanho dos pontos. Na amostra do lado esquerdo, em "D. PEDRO I.", os pontos são maiores em comparação com o ponto na inscrição "D PEDRO .I", mostrada ao lado direito.

Existem ainda variantes com a inscrição 'BRASIL’ corrigida. Em 1922, provavelmente essa correção ocorreu a partir do cunho fêmea (die), preenchendo-se, no cunho, a parte inferior do segundo ‘B’, que estava em baixo-relevo. Assim, quando um disco fosse cunhado, apenas o restante da letra 'B' passaria a aparecer em alto-relevo, formando a letra 'R'. Alguns colecionadores mencionam que é possível observar, nas moedas cunhadas a partir de cunhos corrigidos, uma pequena sombra nessa posição. Quem possuir imagens desse detalhe e puder compartilhá-las, agradeço.

No catálogo Moedas do Brasil, 4º volume, 1ª parte — República: Cupro, Alumínio e Aço Inox (1993), de J. Vinicius, é mostrado que a inscrição “D PEDRO .I” consta tanto nas moedas “BBASIL” quanto nas moedas com “BRASIL” corrigido. Essa observação também aparece no Catálogo Ilustrado Moedas com Erro 4 (2025), de Lucimar Bueno e Edil Gomes, como uma importante característica para a identificação de moedas cunhadas com cunhos corrigidos.


A moeda de 2000 réis de 1922

Decreto nº 15.728, de 12 de outubro de 1922. Autorizou a cunhagem de moedas de prata de 2.000 réis, com o título 900. em substituição de papel-moeda incinerado

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização do art. 2º do decreto legislativo n. 4.182, de 13 de novembro de 1920, resolve:

     Art. 1º Fica o ministro da Fazenda autorizado a mandar cunhar moedas de prata do valor de 2$, com peso, titulo e modulo seguintes:

Peso em grammasTituloModulo em millimetros
8,0000,90026

      § 1º A tolerancia para mais ou para menos no peso das referidas moedas será de um decigramma; a da composição da liga monetaria será de dous millesimos para mais ou para menos.

      § 2º As moedas de prata a que se refere o art. 1º não serão admittidas nem na receita e despeza das estações publicas, nem nos pagamentos entre os particulares (salvo o caso de mutuo consentimento destes), sinão até a quantia de 20$000.

      § 3º O Governo applicará á cunhagem das moedas de 2$ a prata que possuir o Thesouro e fôr adquirida.

      § 4º A despeza correspondente ao custo da prata será escripturada sob o titulo «conversão de especie».

      § 5º A moeda subsidiaria que fôr cunhada só será posta em circulação depois que tiver sido incinerada igual quantia em papel-moeda.

*Desta forma o mesmo montante monetário foi mantido. 

 Circular nº : 44 de 13 de outubro de 1922detalha a composição  da moeda de prata de 2$000

Ministério dos Negócios da Fazenda — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1922.

Declaro aos Srs. chefes das diversas repartições subordinadas a este Ministério, para seu conhecimento e fins convenientes, que as novas moedas de prata do valor de 2$000, cunhadas em virtude da autorização contida no art. 2o do decreto n. 4.182, de 13 de novembro de 1920, tem o peso de 8 grámmas, 26 milímetros de diâmetro e os seguintes característicos: 

Anverso — Ao centro os retratos conjugados do primeiro Imperador e do actual Presidente da Republica, encimados pelo Cruzeiro do Sul e ladeados pelas inscripções: Acclamador da Independencia —Pedro I, e Presidente da Republica — Epitacio Pessôa, e no exergo a palavra «Brasil ».

Verso — No centro de um cartão, cujas bordas terminam, em ornamentos, vêm-se as armas do primeiro Império e da Republica, tendo na base as eras — 1822-1922; sobre o cartão a legenda — Primeiro Centenário da Independência - e no exerço as palavras — mil réis — encimadas pelo algarismo 2. Circula o planeta da moeda uma ordem de pérolas.

* Assim como nas moedas de $500 e 1$000 , nesta circular não verificamos qualquer "." em Pedro I , e Acclamador e Presidente aparecem por extenso. Enquanto que na moeda lemos ACCLAM. e PRESID.  abreviados e temos a versão sem pontos D PEDRO I (com ressalvas) e sua variante com pontos D. PEDRO .I.,  todas as inscrições na moeda estão em letras maiúsculas.  Nesta moeda não temos o "X." (décimo), e o único acento mencionado nas inscrições aparece na moeda no sobrenome do presid. Epitacio Pessôa. 

A  Lei nº 4.632, de 6 de janeiro de 1923,  publicada no [Diário Oficial da União de 07/01/1923Fixa a Despesa Geral da República dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1923. 

No art. 127, incisos nº 10 e  nº 11, temos: 

10. são apresentadas novas diretrizes para a fabricação da moeda de prata, ao prever a modificação de seu título por meio da adoção da liga empregada na moeda de prata inglesa conforme a lei The Amending Act (10 George V, cap. 3).

Nota: The Amending Act  menciona o ato legislativo que refere ao Coinage Act 1920 (Lei da Cunhagem de 1920) Entitulado como:  An Act to amend the Law in respect of the Standard Fineness of Silver Coins current in the United Kingdom and in other parts of His Majesty's Dominions. Citação: 10 & 11 Geo. 5 c. 3 

Essa lei resultou em uma drástica redução do teor de prata das moedas britânicas, anteriormente fabricadas em prata de lei (sterling silver), com pureza de 92,5%. Com o Coinage Act, a composição foi alterada para 50% de prata e 50% de outras ligas metálicas, em geral cobre.


11. A elevar a 2 % a tolerância de 1 % para mais ou para menos, permitida na liga das moedas de cobre e alumínio.

Decreto nº 15.936, de 24 de janeiro de 1923, art. 1 e 2. Reduziu para 500 o título das moedas de prata.


O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização contida no art. 127, ns. 10 e 11, da lei n. 4.632, de 6 de janeiro corrente, resolve:

     Art. 1º Fica reduzido para o titulo de 500 o titulo da moeda de prata cunhada de acordo com o art. 2º da lei numero 4.182, de 13 de novembro de 1920, e a que se refere o decreto n. 15.728, de 12 de outubro de 1922.

     Art. 2º É elevada a 2% a tolerância permitida na liga das moedas de cobre e alumínio, creadas pelo art. 146, n. 1, da lei n. 4.555, de 10 de agosto de 1922, e a que se refere o decreto n. 15.620, de 19 do mesmo mês.

Moedas de 2$000 réis

Material: liga do material: Ag 90%, Cu 10% ou  liga do material: Ag 50%, Cu 50%.
Diâmetro: 26,0 mm.
Massa: 8,00 g.
Espessura: 1,80 mm. 
Bordo: serrilhado.
Eixo: Reverso Medalha.

Anverso: Bustos de Dom Pedro I ao lado esquerdo e presidente Epitácio Pessoa ao lado direito, com Epitácio Pessoa ocupando a frente, indicando a ordem cronológica entre os dois lideres. Ambos os lideres aparecem em perfil apontando para a direita (lado esquerdo do observador) Os dois bustos são envolvidos na orla pela inscrição "ACCLAM. DA INDEPENDENCIA (separados por 2  * * estrelas  Beta Crucis e Gamma Crucis da constelação do Cruzeiro do Sul) PRESID. DA REPUBLICA. Ao lado esquerdo a inscrição de  D. PEDRO I e ao lado direito a inscrição de Epitácio Pessoa.  No exergo a inscrição do Brasil. A orla apresenta um relevo regular que confere a aparência de “pérolas”

Reverso: Sobre um pergaminho recortado e com as pontas retorcidas, que abrange quase toda a moeda, têm à esquerda as Armas do Império e à direita as armas da República. Embaixo, entre os dois brasões as datas 1822-1922. No alto, em cima do pergaminho, em quatro linhas paralelas, a legenda 1º CENTENARIO DA INDEPENDENCIA, as três primeiras horizontais e a quarta curva. No exergo, também abaixo do pergaminho, o valor 2 MIL RÉIS em duas linhas, sendo as palavras mil réis em linha curva acompanhando a orla. No exergo, à direita, a sigla JV do gravador  João da Crua Vargas. A orla apresenta um relevo regular que confere a aparência de “pérolas”.

Amostra 1: Esta amostra possui os pontos espessos em D. PEDRO .I. e a letra 'A' da inscrição da REPUBLICA aberto, sem o traço do A. 

 

Sigla no Anverso

Sigla JV do gravador  João da Crua Vargas

A Constelação do Cruzeiro do Sul: 


Constelação do Cruzeiro sul na moeda de 2$000 1922

Assim como nas moedas de 500 e 1 000 réis, as estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul mantêm o mesmo número de pontas. Porém, na moeda de 2 000 réis, a constelação é apresentada de forma um pouco mais inclinada. A estrela Gamma Crucis (Gacrux), também conhecida como Rubídea, localizada na parte mais alta da moeda, é representada com seis pontas. No alto, à esquerda, encontra-se a Beta Crucis (Becrux ou Mimosa), com sete pontas. No lado direito, um pouco mais abaixo, está a Delta Crucis, também chamada de Pálida, com cinco pontas. No centro, localiza-se a Epsilon Crucis (Intrometida), conhecida como Ginan, com quatro pontas. Por fim, na parte inferior esquerda, destaca-se a Alpha Crucis, ou Estrela de Magalhães, representada com oito pontas.

Os brasões do império e da república



Brasões Detalhados da moeda de 2000 réis, em imagem montada  com várias fotos do microscópio

As 19 estrelas, do brasão do império representam 19 províncias: Alagoas, Bahia, Ceará, Cisplatina, Espírito Santo, Goiás, Grão-Pará, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande de São Pedro, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe).

As 20 estrelas,  do brasão da república representa os 19 estados: Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, além do Distrito Federal, então sediado na cidade do Rio de Janeiro).

Nas armas da república é observado um ponto ao lado da estrela Intrometida, Epsilon Crucis (Ginan)

 Detalhes no Brasão de  república mostrando um ponto. 

As Moedas Variantes de 2000 réis 1922

Amostra 2: Esta amostra apresenta a inscrição de D. PEDRO .I.  com pontos finos,  e a letra 'A' da inscrição da REPUBLICA completo.


Amostra 3: Esta amostra apresenta a inscrição de D. PEDRO I.  com pontos finos, sem um ponto antes da letra 'I.'  e a letra 'A' da inscrição da REPUBLICA é completo. 


Amostra 4: Esta amostra apresenta a inscrição de D PEDRO I, sem pontos,  e a letra 'A' da inscrição da REPUBLICA aberto, sem o traço do A. 


Detalhes nas inscrições das quatro amostras fotografadas: 


Detalhes nas Inscrições apresentados nas amostras 1, 2, 3 e 4 olhando de cima para baixo

*Na variante com pontos mais grossos o ponto após a letra O. esta praticamente alinhado com letra O. Enquanto na variante de pontos finos o ponto fica um pouco mais alto. 

A primeira vista, conseguimos observar que as amostras com o A completo são cunhos diferentes,  conforme mostrado na figura acima (Amostra 2 e Amostra 3). Porém, ao alterarmos a iluminação, observa-se o ponto oculto atrás do ‘I’. Assim, conclui-se que esse cunho apresenta um defeito de cunhagem, e que esta moeda exibe o efeito de um Cunho Entupido (filled die).


Sombra do ponto apresentada antes do I. (Amostra 3)

Também é possível observar o efeito de cunho entupido nas amostras com a letra A sem o traço. 

Sombra do traço apresentado na letra A , mostrando respectivamente as Amostra 1 e Amostra 4.

Assim, a conclusão observada através das amostras fotografadas é a de que existem três variantes de cunho para o anverso da moeda de 2000 réis de 1922: a variante com a inscrição ‘D. PEDRO .I.’ com pontos grossos, ‘D. PEDRO .I.’ com pontos finos e ‘D PEDRO I’ sem pontos. Nesta última amostra, não foi possível observar qualquer sombra ou vestígio dos pontos, razão pela qual ela está sendo mantida, provisoriamente, como uma variante distinta. Contudo, ainda se faz necessária a análise de outras moedas para verificar se se trata, de fato, de um cunho diferente ou se estamos diante de um caso de cunho entupido.

 Variantes em Relação ao Teor de Prata (0,900 e 0,500)

O Decreto nº 15.728, de 12 de outubro de 1922, sancionado pelo presidente Epitácio Pessoa, autorizou a cunhagem de moedas de prata de 2.000 réis, com título 900. Posteriormente, o Decreto nº 15.936, de 24 de janeiro de 1923, também sancionado por Epitácio Pessoa, estabeleceu, em seus artigos 1º e 2º, a redução do título para 500.

Embora diversos catálogos busquem correlacionar as variantes de cunho ao teor de prata empregado na fabricação dos discos monetários, a determinação do teor (0,900 ou 0,500) exclusivamente por meio da análise visual, revela-se um procedimento altamente incerto e pouco confiável, uma vez que um mesmo cunho pode ter sido utilizado na cunhagem de discos com composições e densidades distintas.

Neste blog, demonstro como é possível utilizar uma ferramenta de análise para determinar o teor de prata a partir da densidade (Confira Aqui!), utilizando o princípio do empuxo de Arquimedes. Dessa forma, torna-se possível distinguir o teor de prata com maior precisão.

Dessa forma, a análise das quatro amostras resultou nos valores apresentados na tabela abaixo.

                            Tabela demonstrando o teor de prata nas amostras de 2000 reis de 1922                       

Assim traçando a curva do teor de prata para as quatro amostras temos:

Nos resultados apresentados acima, observa-se que as moedas mais próximas do teor de prata 0,900 são aquelas produzidas pelos cunhos ‘D. PEDRO .I.’ e ‘D. PEDRO I.’ (com a letra A com traço). Considerando ainda que possam ter sido produzidas a partir do mesmo design de cunho, conclui-se que ambas as moedas pertencem à variante ‘D. PEDRO .I.’ de pontos finos. Essa informação corrobora, em parte, com a maioria das interpretações existentes nos catálogos, mas, novamente, ressalta-se que não deve ser considerada uma regra. Quando adquiri essas moedas em leilões, a Amostra 4, por exemplo, foi oferecida como prata 0,900. Dessa forma, para determinar com maior segurança o teor de prata de uma moeda, o mais adequado é utilizar outros métodos de análise, como a determinação da pureza da prata por meio da medição da densidade.

Nota: A moeda referente à Amostra 1 foi a mesma utilizada no experimento anterior, onde apresento a ferramenta para medir densidade utilizando o método hidrostático. Neste primeiro experimento, o teor de prata medido para esta moeda ficou em 0,500. Ao repetir esta medida neste segundo experimento, o valor do teor de prata ficou em 0,444. A causa mais provável para esta variação no teor de prata deve-se à alta sensibilidade do modelo matemático frente a pequenas oscilações de densidade, causadas de forma combinada pelo empuxo parasita de microbolhas de ar retidas nos relevos da moeda e pela alteração no nível da água que cobriu uma fração maior do suporte de cobre pós-tara no segundo experimento. Ainda assim, essa variação nos valores de densidade obtidos não impede de classificar a moeda com um teor de prata próximo a 0,500, mantendo-se perfeitamente distinguível das densidades características de moedas com teores mais elevados, próximos a 0,900.

Tiragem das Moedas Comemorativas ao 1º Centenário da Independência do Brasil pelos Decreto nº 4.555 e Decretos nº 15.728 e nº 15.936.
* Incluso as moedas D. PEDRO I. (BRASIL)  e D PEDRO .I (BBASIL e BRASIL corrigidos) .
* Incluso as moedas de 2000 réis com prata D. PEDRO. I . (pontos grossos e pontos finos) e D PEDRO I com possíveis variantes no teor de prata 0,500 e 0,900 sendo as de 0,900 cunhadas após o Decreto nº 15.936 em 1923

No livro Moedas do Brasil (2002), Eugenio Vergara Caffarelli, menciona que  de As moedas de 500 réis foram cunhadas: 776.000 no ano de 1922 e 12.968.000 no ano de 1923, as as moedas de 1.000 foram cunhadas: 1.409.000 no ano de 1922 e 15.289.000 no ano de 1923.

No periódico de COIMBRA, Álvaro da Veiga, “Questões Pedagógicas — Noções de Numismática Brasileira (VII). (Continuação). XVII — República. 1889.”, publicado na Revista de História, São Paulo, v. 21, n. 43, p. 203–250, 1960, é citado que as moedas de 2.000 réis tiveram cunhagem de 359.570 unidades em 1922, totalizando o valor de 719:140$000. Já em 1923, com título de 0,500, foram cunhadas 1.200.000 moedas de 2.000 réis, correspondendo ao valor de 2.400:000$000.

Curiosamente, nessa revista é mencionada outra referência: BAUMANN, Chas. A. Numismática Brasileira. Teresópolis, 1938, na qual é informado que: “Com a redução do título de 0,900 para 0,500, desapareceram da circulação todas as moedas de prata cunhadas antes de 1923, inclusive as comemorativas cunhadas em 1922; as moedas de prata de 2 mil réis com a era de 1922, que se encontram hoje (datado de 1938) em circulação, são todas moedas cunhadas em 1923 com o título de 0,500.” 

Essa é uma afirmação pouco provável de ter ocorrido, mesmo na época, considerando que as moedas de prata com título de 0,900 já estivessem em circulação. Embora fosse possível impedir a distribuição das peças ainda retidas na Casa da Moeda, a separação das demais exigiria a análise individual de cada exemplar, tornando o processo extremamente trabalhoso e praticamente inviável em larga escala

Curiosidades:

Moedas Ensaios

Na 2ª parte do catálogo Moedas do Brasil – Cupro, Alumínio, Aço Inox – Ensaios e Provas, 4º volume (1993), de Marcelo Rocha Borges, são apresentados diversos ensaios com figuras utilizadas nas moedas de 500, 1.000 e 2.000 réis.

Segundo o autor, esses ensaios são referentes às moedas de 2.000 réis de 1922.

1 - Ensaio sem valor, apresentando no "anverso" o busto de José Bonifácio ladeando imperador D. Pedro I. 


Neste ensaio podemos identificar  no "reverso" (sem valor) a semelhança com os reversos das moedas de 500 réis  e 1000 réis.

José Bonifácio de Andrada e Silva foi fundamental para a Independência do Brasil por ter sido o principal articulador político e conselheiro de Dom Pedro I, liderando as decisões estratégicas que uniram as províncias, organizaram o novo Estado e garantiram a transição soberana do país sem que houvesse uma fragmentação do território nacional.

2 - Ensaio sem valor, com feixe consular no "anverso". 


Neste ensaio podemos identificar no "reverso"  a semelhança com os reversos  da moeda de 2000 réis . 

3 - Ensaio apresentando o valor


Neste ensaio, o “anverso” apresenta a figura do reverso das moedas de 2.000 réis de 1922, enquanto o reverso apresenta semelhanças com o reverso das moedas comemorativas do Descobrimento, de 2.000 réis de 1900.

 Augusto Girardet e o Erro BBASIL, 

Augusto Giorgio Girardet (1879–1955) foi um celebrado escultor, gravador, medalhista e professor de origem italiana que, após se estabelecer no Rio de Janeiro no final do século XIX, tornou-se uma das figuras mais influentes da Belle Époque carioca no campo da medalhística e das artes aplicadas. Formado na tradição artística europeia, destacou-se pela precisão técnica de seus relevos, pela elegância acadêmica de suas composições e pela forte influência do estilo neoclássico e art nouveau em suas obras.

Na Escola Nacional de Belas Artes, exerceu papel fundamental no ensino artístico brasileiro como professor titular de Gravura de Medalhas e Pedras Preciosas, formando diversas gerações de artistas e escultores, entre eles Leopoldo Campos, Humberto Cozzo, Modestino Kanto e Gaston Jacquet. Sua longa permanência à frente da cadeira de gravura consolidou o ensino da medalhística no Brasil durante a primeira metade do século XX.

Paralelamente à atividade acadêmica, Girardet atuou na Casa da Moeda do Brasil, onde participou da elaboração de matrizes, modelagens e supervisão estética de moedas, medalhas e condecorações oficiais. Seu nome esteve associado a importantes emissões comemorativas da República, especialmente às moedas do Centenário da Independência de 1922, consideradas algumas das mais emblemáticas da numismática brasileira. Também colaborou na criação de medalhas oficiais, premiações e peças comemorativas destinadas a instituições públicas e eventos nacionais.

Além de sua atuação artística e técnica, Girardet exerceu grande influência na consolidação da gravura em medalhas como disciplina acadêmica no Brasil, tornando-se referência para a formação de gravadores e escultores ligados tanto às artes plásticas quanto à produção monetária oficial.

No artigo “Notas sobre a vida e obra de Augusto Giorgio Girardet”, escrito por José Roberto Ulian e publicado no Boletim da Sociedade Numismática Brasileira — Semestral, 2024, nº 85, o artigo detalha a biografia de Augusto Giorgio Girardet, desde suas origens em uma tradicional dinastia europeia de gravadores e formação na Itália até sua vinda ao Brasil em 1892, destacando sua atuação como professor da Escola Nacional de Belas Artes e gravador da Casa da Moeda. Neste artigo também é mencionado que, ao identificar o erro “BBASIL” nos moldes das moedas de 1.000 e 500 réis do centenário da Independência, foi solicitado que a correção fosse realizada durante o processo de redução. Entretanto, isso não ocorreu, e as moedas acabaram sendo cunhadas com a falha. O autor também relata que Girardet nunca escondeu a tristeza por saber que um subordinado seu havia cometido um erro tão primário. (Referência citada pelo autor em outro artigo: “O Gravador Girardet”, de Francisco Marques dos Santos, Boletim da SNB nº 55, 2º semestre de 2005, reimpressão de artigo datado de 1942.)

O Almanak Laemmert : Administrativo, Mercantil e Industrial (RJ) foi um dos mais importantes anuários brasileiros dos séculos XIX e início do XX. Publicado no Rio de Janeiro, reunia informações administrativas, comerciais, industriais e sociais do país, funcionando como uma espécie de guia oficial e comercial da época.

A Casa da Moeda do Brasil era uma instituição estratégica do governo, responsável pela cunhagem de moedas, produção de medalhas, selos e, posteriormente, cédulas. Por isso, seus funcionários e cargos apareciam no almanaque da mesma forma que ministérios, repartições públicas e outros órgãos oficiais.

No Almanak de 1922–1923, anos 78º  e 79º ANNO, 1º volume, é possível verificar a relação dos funcionários da oficina da Casa da Moeda. 

Funcionários das oficinas da Casa da Moeda públicado no Almanak Laemmert em 1922. (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026).

Assim Temos nas Oficinas: 

Álvaro José Nunes — Mestre da oficina de fundição

Oficina de fundição de ligas

Oscar Barbosa Duarte — Mestre

Gabriel Ferreira Lage — Ajudante

Oficina de laminação e cunhagem

Francisco Sampaio Guimarães — Mestre da oficina de laminação e cunhagem

Arthur de Araújo Braga — Ajudante

José Marinho de Rezende — Fiscal da cunhagem

Oficina de máquinas

Urias de Assis Freitas Drummond — Mestre da oficina de máquinas

Luiz Roque Pinheiro — Ajudante

Oficina de gravura

Manoel José de A. Silveira — Mestre da oficina de gravura

Gravura e modelagem

Augusto Girardet — Professor de gravura e modelagem

Gravadores

João da Cruz Vargas

Antonio José da Silveira

Oficina de impressão

Francisco Ferreira Pinheiro — Mestre da oficina de impressão

Ajudantes

Belarmindo Ferreira Pinheiro

Alberto Rodrigues Teixeira Bastos

Olhando uma lista tão grande, fica difícil encontrar um único culpado pelo erro das moedas cunhadas como BBASIL. Prova disso é que Augusto Girardet e boa parte da equipe continuaram exercendo suas funções na oficina de gravura por muito tempo.

Na revista O Malho, uma das mais importantes publicações ilustradas de humor, sátira política e crítica social do Brasil na primeira metade do século XX, o artigo sobre 'Leopoldo Campos', publicado por Ercole Cremona na seção 'Bellas Artes', em 24 de fevereiro de 1923, apresenta menção ao erro 'BBASIL' nas moedas comemorativas do centenário da Independência.

Artigo , "Leopoldo Campus" de Ercole Cremona publicada na revista o Malho em 24 de fevereiro de 1923 (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

Neste artigo, o crítico Ercole Cremona utiliza o sucesso do gravador Leopoldo Campos, formado na Escola de Bellas Artes sob a tutela de Augusto Girardet e premiado com uma viagem à Europa em 1921, para contrastar o brilhantismo individual de novos talentos com o profundo atraso tecnológico, desorganização e obsolescência da Casa da Moeda, apontando os erros na Oficina de Gravura, onde sua crítica mira especificamente o envelhecimento do corpo técnico, o uso de maquinários antigos e a lentidão nos processos de têmpera e redução, argumentando que essas falhas influenciaram diretamente no famoso erro das moedas BB do Centenário, o que serve como a prova definitiva da urgência por uma reformulação técnica e artística na instituição.

O texto estabelece, assim, uma relação paradoxal em relação a Girardet: embora o reconheça como o mestre responsável por lapidar o talento de Leopoldo Campos na Academia, projeta sobre a sua liderança na Oficina de Gravura uma crítica indireta, ao sugerir que a instituição necessitava urgentemente de ideias modernas e que o jovem pupilo seria o nome ideal para assumir a direção artística e romper com o conservadorismo técnico da época. Apesar destas duras críticas, não há, até o momento, indícios de que elas tenham motivado o desligamento de Girardet da Casa da Moeda.

Em 4 de abril de 1925, na mesma revista é publicado uma "Photographia Interessante"

"Photographia Interessante" públicada na revista O malho de 4 de abril de 1925 (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

Alguém poderia informar o nome dos discípulos  de Girardet nesta foto? O primeiro, sentado a esquerda, Leopoldo Campos.

Por fim, a última consulta registrada no Almanaque (Considerando que no momento de sua publicação  estivesse atualizado) em que Augusto Girardet consta como funcionário da Casa da Moeda foi em 1927. Naquela ocasião, ele acumulava funções tanto na seção de Gravura e Gravação de Medalhas da instituição monetária quanto na Escola Nacional de Belas Artes, onde atuava como professor titular de Gravura de Medalhas e Pedras Preciosas.

Augusto Girardet, membro da oficina da casa da moeda e professor da Escola Nacional de Bellas Artes. públicado no Almanak Laemmert em 1927. (Fonte:
memoria.bn.gov.br, 2026).

Nota: 

Na antiga Academia Imperial de Bellas Artes, (posteriormente denominada Escola Nacional de Bellas Artes após a Proclamação da República) o ensino de gravura em medalhas passou por diversos períodos de interrupção e vacância antes de ser consolidado sob a direção de Augusto Giorgio Girardet. Inicialmente, a cadeira foi conduzida por Zepherin Ferrez, gravador e medalhista com destacada atuação na Casa da Moeda, e posteriormente por José da Silva Santos, seu discípulo e sucessor. Após a morte de José da Silva, em 1869, a cadeira foi extinta e substituída pela de xilografia, que permaneceu vaga até sua extinção em 1890. Com a reforma promovida pelo Novo Estatuto, a cadeira de gravura em medalhas foi restabelecida e assumida por Augusto Giorgio Girardet em 1891, permanecendo sob sua direção durante quarenta e dois anos. A partir de 1934, Dinorah Azevedo de Limas Enéas, aluna de Girardet, tornou-se responsável provisoriamente pelo ensino até 1957, quando Leopoldo Campos assumiu a cátedra de gravura, permanecendo nela até a década de 1960.

*Nota com referência  a MALTA, Marize (org.). O ensino artístico, a história da arte e o Museu D. João VI. Rio de Janeiro: EBA/UFRJ, 2010. 

Na seção 'HOMENAGENS', publicada no jornal Gazeta de Notícias (RJ) em 27 de julho de 1927, é relatada a iniciativa dos artistas gravadores da Casa da Moeda do Brasil que, declarando-se discípulos de Augusto Girardet, solicitaram e obtiveram a aprovação do Diretor Dr. Honório Hermeto para confeccionar e fixar uma placa de bronze nas dependências da instituição, com o objetivo de perenizar a gratidão do corpo técnico pelo desenvolvimento artístico alcançado sob a tutela do mestre.

Homenagem a Agusto Girardet , públicada no jornal Gazeta de Notícias (RJ) em 27 de julho de 1927 (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2026)

* Leopoldo Campos sucedeu Girardet no campo artístico/da gravura da Casa da Moeda a partir de 1927-1928. 

*Nos anos seguintes Augusto Girardet continuou sua obra, tendo desenhado muitas medalhas modeladas pela Casa da Moeda.










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