As Moedas de Réis (padrão mil-réis) lançadas entre 1918 e 1935
Em 1918, o Brasil era governado por Venceslau Brás, em um período marcado pelos impactos finais da Primeira Guerra Mundial, conflito no qual o país participou diretamente ao lado dos Aliados a partir de 1917 e pelo avanço devastador da epidemia da Gripe Espanhola. A economia brasileira tinha como principal pilar a exportação de café, enquanto produtos como açúcar e cacau tentavam ganhar espaço, em contrapartida ao severo declínio do ciclo da borracha na Amazônia, que sofria com a concorrência asiática. As dificuldades da época incluíam a forte retração do comércio internacional, inflação galopante, escassez de produtos importados e severos problemas de transporte marítimo devido ao bloqueio e ataques alemães. Por outro lado, o isolamento forçado do mercado europeu acelerou o processo de substituição de importações, impulsionando a indústria nacional nos setores têxtil, alimentício e metalúrgico. O governo buscou manter a estabilidade econômica por meio de políticas de valorização do café e reorganização das finanças públicas, ao mesmo tempo em que enfrentava a paralisia urbana e os enormes desafios sanitários e sociais decorrentes da pandemia que assolava as principais capitais do país.
Nota: O Primeiro Ciclo da Borracha (1879–1912) enriqueceu a região amazônica devido à alta demanda global por látex, mas entrou em colapso após sementes de seringueira serem contrabandeadas para a Ásia, onde plantações mais eficientes inundaram o mercado com um produto muito mais barato. Um segundo ciclo ressurgiu estrategicamente anos mais tarde, em 1942, impulsionado pelas demandas militares aliadas durante a Segunda Guerra Mundial.
O uso do cuproníquel (liga composta por 75% de cobre e 25% de níquel) no numerário brasileiro iniciou-se em 1871, durante o reinado de Dom Pedro II, com o objetivo de substituir as antigas e pesadas moedas de bronze.
Décadas mais tarde, documentos oficiais da época, especialmente os Relatórios do Ministério da Fazenda, registram que, entre o final de 1914 e o início de 1915, as moedas de prata tornaram-se extremamente escassas na circulação em consequência dos impactos econômicos da Primeira Guerra Mundial. Paralelamente, o governo intensificou a emissão de papel-moeda para enfrentar a crise monetária, enquanto a escassez de moedas metálicas agravava a falta de troco nas transações comerciais. Diante desse cenário, o presidente Venceslau Brás autorizou, por meio de decreto, a emissão de uma nova série de moedas divisionárias de cuproníquel. A medida consolidou definitivamente essa liga como o principal material empregado na cunhagem das moedas divisionárias brasileiras, cuja elevada resistência ao desgaste e menor custo em relação à prata contribuíram para sua ampla utilização nas décadas seguintes.
As moedas de 20, 50, 100, 200 e 400 réis, cunhadas a partir de 1918, conviveram com outras famílias monetárias, como as moedas comemorativas do 1º Centenário da Independência, nos valores de 500, 1.000 e 2.000 réis; as moedas de réis cunhadas em 1924, de 500 e 1.000 réis, com a representação da Deusa Ceres, e as de 2.000 réis, da série conhecida como “Mocinhas”; as Moedas Vicentinas, de 1932; e as primeiras moedas da série com brasileiros ilustres, nos valores de 500, 1.000 e 2.000 réis, apresentando as figuras do Regente Feijó, do Padre Anchieta e do Duque de Caxias.
Notas:
1- A liga de cuproníquel foi introduzida no Brasil Império em 1871, durante as primeiras emissões das moedas de 100 e 200 réis, e continuou a ser utilizada no início da República Velha, entre 1889 e 1901. Nesse período, a liga foi empregada na série de moedas de 100 e 200 réis, nas moedas do Descobrimento e nas moedas MCMI. As moedas de 400 réis com a efígie da República segurando o livro com a inscrição “LEX”, nos tipos de pescoço baixo e pescoço alto, datadas de 1914, também foram cunhadas em cuproníquel. Entretanto, até onde se sabe, essas moedas foram posteriormente retiradas de circulação. Ao longo das décadas, a inflação reduziu significativamente o poder aquisitivo dessas moedas. Em determinados períodos, a valorização internacional do cobre e do níquel também elevou seu valor intrínseco, favorecendo o entesouramento e, em alguns casos, o derretimento ilegal.
As moedas de cuproníquel, com liga composta por 75% de cobre e 25% de níquel (75% Cu e 25% Ni), continuaram a circular juntamente com peças produzidas em outras ligas entre 1918 e 1940, abrangendo as moedas comemorativas de 100, 200 e 400 réis Vicentinas, as moedas de 100, 200, 300 e 400 réis da série dos Brasileiros Ilustres e as primeiras moedas cunhadas durante o governo de Getúlio Vargas, de 100, 200, 300 e 400 réis. Em 1942, ocorreram as últimas emissões desse material utilizando o chamado “níquel rosa”, uma liga composta por 88% de cobre e 12% de níquel (88% Cu e 12% Ni). Dentre essas últimas emissões em níquel rosa, temos tanto as derradeiras moedas em réis (100, 200, 300 e 400 réis do governo de Getúlio Vargas) quanto as primeiras moedas do Cruzeiro (10, 20 e 50 centavos). A partir de então, em razão do elevado custo do cuproníquel, essa liga foi gradualmente abandonada nas novas emissões, sendo substituída por materiais mais econômicos, como o bronze-alumínio e, posteriormente, o alumínio — utilizado em algumas emissões com elevado grau de pureza, chegando a 99,50% de alumínio. A liga só voltou a ser empregada no final do período do Cruzeiro, com a emissão da moeda de 50 cruzeiros de 1965, que trouxe em seu anverso a efígie da República, inspirada no rosto da atriz Tônia Carrero, retratada de perfil. Posteriormente, a liga também foi utilizada na cunhagem de moedas brasileiras durante o padrão Cruzeiro Novo, a partir de 1967, com moedas cunhadas em 1968.
2- As moedas de prata continuaram a ser cunhadas até meados da década de 1930. Embora a prata tivesse deixado de ser utilizada nas moedas de circulação regular — a última moeda produzida nesse metal para esse fim havia sido cunhada em 1913 (90% Ag e 10% Cu) —, ela voltou a ser empregada a partir de 1922 em emissões especiais. Entre elas, incluem-se as moedas de 2.000 réis comemorativas do Centenário da Independência, cunhadas em prata de 0,900 (90% Ag e 10% Cu) e 0,500 (50% Ag e 50% Cu); as moedas de 2.000 réis da série das “Mocinhas” (50% Ag e 50% Cu), cunhadas entre 1924 e 1934; a moeda de 2.000 réis de 1932, com a efígie de D. João III, da série Vicentina (50% Ag, 40% Cu, 5% Ni e 5% Zn); e a moeda de 2.000 réis de 1935, com a efígie do Duque de Caxias, pertencente à série dos Brasileiros Ilustres. Destaca-se, por fim, a última emissão de prata, a moeda de 5.000 réis com a efígie de Santos Dumont (60% Ag e 40% Cu), emitida em 1935 e cunhada até 1938.
Neste artigo serão mostradas as Moedas de Cuproniquel lançadas no período de 1918 e 1935.
O artigo 162 da Lei nº 3.454, de 6 de janeiro de 1918, em seu inciso IV, determinava a cunhagem de moedas divisionárias de cuproníquel:
IV - A mandar cunhar moeda divisionaria de nickel e cobre na Casa da Moeda desta Capital;
A Circular nº : 35 de 12 de julho de 1918, detalha a composição das moedas de 100, 200 e 400 réis
A reportagem “Moedas de Nickel”, publicado no Jornal do Commercio em 2 de setembro de 1918, relata que, sob a direção do Dr. Luiz Adolpho Corrêa da Costa, a Casa da Moeda promoveu a renovação do sistema fracionário, com a aprovação do Ministro da Fazenda, Dr. Antônio Carlos. O projeto previa o recolhimento de aproximadamente 46.000:000$000 réis em moedas antigas, incluindo as de bronze de 10, 20 e 40 réis e as moedas de níquel de cunhos anteriores, de 50, 100 e 200 réis.
Essas peças seriam substituídas por uma nova série de moedas de níquel, composta pelas denominações de 400 réis (12 g), 200 réis (8 g), 100 réis (5 g), 50 réis (3 g) e 20 réis (2 g). O artigo destacava ainda que os cunhos das moedas de 50 e 100 réis já estavam prontos e que apresentariam, no reverso, a efígie da República circundada por 21 estrelas.
O Decreto nº 13.198, de 25 de setembro de 1918, autorizou a emissão da importância de 20.000:000$000 réis, em moedas divisionárias de níquel e cobre, cunhadas na Casa da Moeda.
O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização no art. 162, n. VI, da lei numero 3.454, de 6 de janeiro do corrente ano, resolve:
Artigo unico. Fica o ministro da Fazenda autorizado a emitir a importância de 20.000:000$, em moedas divisionarias de nickel e cobre, cunhadas na Casa da Moeda; revogadas as disposições em cotrario.
O Decreto nº 3.545, de 2 de outubro de 1918, abriu um crédito de 10:000$000 (10 contos de réis) para modificar a legenda das moedas divisionárias de prata e para a cunhagem de novas moedas de níquel de 50 e 20 réis, (emitidas com pesos de 3 e 2 gramas, respectivamente, e módulos de 17 e 15,5 milímetros).
EMENTA: Autoriza o Presidente da Republica a abrir o credito de 10:000$000, para a modificação da inscrição das moedas divisionárias de prata e nickel e cunhagem de novas moedas de nickel de 50 a 20 réis.
Nota: O Decreto nº 3.545 menciona a “modificação da inscrição das moedas divisionárias de prata”, porém não especifica qual seria essa nova inscrição. Nas emissões anteriores de moedas de prata, cunhadas até 1913, encontramos o lema “ORDEM E PROGRESSO”. Curiosamente, quando a prata volta a ser utilizada em emissões especiais, essa inscrição deixa de aparecer. É o que podemos observar, por exemplo, nas moedas de 2.000 réis da série “Mocinhas”, cunhadas a partir de 1924. Seria a “modificação da inscrição” uma referência justamente à retirada do lema “ORDEM E PROGRESSO”?
A Circular nº : 44 de 15 de outubro de 1918, detalha a composição das moedas de 20 e 50 réis
Nota: Novamente a Circular nº 44 mostra como anverso a descrição do valor e da data.
No relatório apresentado pela Casa da Moeda e publicado no Relatório do Ministério da Fazenda de 1919, o então diretor da Casa da Moeda, Dr. Luiz Adolpho Corrêa da Costa, apresenta as justificativas para a cunhagem de novas moedas de níquel. Segundo o diretor, as antigas moedas de bronze eram pesadas, feias e incômodas para a população. Para demonstrar numericamente essa desvantagem, comparou a quantidade de valor que podia ser transportada em cada metal: 1 kg de moedas de bronze correspondia, no máximo, a 3$333 (três mil, trezentos e trinta e três réis) em troco, enquanto 1 kg das novas moedas de níquel poderia representar até 33$333 (trinta e três mil, trezentos e trinta e três réis) em valor circulante.
Diante da necessidade de solucionar a falta de troco miúdo no comércio e, ao mesmo tempo, modernizar o sistema monetário fracionário, o diretor propôs a criação de novos cunhos para as moedas de 20 e 50 réis, completando a série de moedas de níquel, composta pelas denominações de 20, 50, 100, 200 e 400 réis. As novas peças seriam significativamente mais leves, limpas e práticas para o transporte e para a circulação em todo o país. O diretor destacou ainda que a substituição poderia aproveitar a infraestrutura já existente na Casa da Moeda, demandando apenas despesas operacionais, como combustível e mão de obra. A redução do diâmetro das moedas também contribuiria para torná-las mais cômodas e favorecer sua aceitação pelo público.
Variantes nas Moedas de 20 Réis
O catálogo online Moedas do Brasil aponta uma variante de cunho nas moedas de 20 réis, indicando que as peças datadas de 1918, 1919 e 1920 apresentam um ponto entre os algarismos “2” e “0”.
Este pequeno ponto poderia facilmente ser confundido com um pequeno efeito de Cunho Quebrado (die break). Entretanto, já observamos pontos semelhantes em outras moedas, como no anverso da moeda de 5 centavos de 1990 do Cruzado Novo, em que há um ponto na data, formando “199.0”, e também no reverso da moeda de 2.000 réis de 1922 comemorativa ao 1º centenário da independência. Nesta última, observa-se, nas armas da República, um ponto ao lado da estrela intrometida, Epsilon Crucis (Ginan). Embora esses pontos não pareçam fazer parte de nenhum dos elementos de desenho do cunho, não podemos tratá-los como simples defeitos de cunhagem, pois aparecem de forma recorrente nas moedas de 20 réis, inclusive em diferentes anos de emissão.
Os pontos observados no cunho do reverso encontram-se sempre na mesma posição. Abaixo, apresento imagens das amostras em que identifiquei esse ponto, datadas de diferentes anos: 1918, 1920, 1921 e também 1927.
Neste caso, considerando que os efeitos foram observados em anos diferentes, também é possível que estejam relacionados às marcas deixadas no cunho pelos testes de dureza, Cunho Marcado por Durômetro (Hardness Test Mark Left in the Die), realizados com o uso de durômetro para medir a resistência do cunho.
E ainda uma amostra de 1919 sem o ponto

Notas:
Na Revista de História (Universidade de São Paulo), São Paulo, 1960, Álvaro da Veiga Coimbra, em “Questões Pedagógicas — Noções de Numismática Brasileira (VII) (Continuação). XVII — República. 1889”, registra que, em 1935, não houve cunhagem regular das moedas de 20 e 50 réis. Entretanto, em janeiro de 1937, a Casa da Moeda teria realizado a cunhagem dessas moedas com o milésimo de 1935, produzindo apenas 25 exemplares de cada denominação, destinados exclusivamente a fins numismáticos, ao seu medalheiro e a particulares interessados, pelo valor de 50$000 por exemplar.
Efeito de Cunho Trincado (Die Crack) na observado na moeda de 20 réis 1927, passando da borda, pela letra "R" até o ramo estilizado.
Curiosidades:
O fim das emissões regulares do 50 réis e, consequentemente, do 20 réis
Publicado no Correio da Manhã em 20 de janeiro de 1937 sob o título "O meio tostão existia, mas foi repellido!", o artigo do diretor da Casa da Moeda, M. Bernardi, responde às críticas sobre a escassez das moedas de 50 réis ("meio tostão"). Utilizando os dados da tabela oficial de cunhagem ( A tiragem das moedas de nickel podem ser conferidas acima) autorizada pelo Decreto nº 3.545, de 2 de outubro de 1918
Embora o artigo não estabeleça expressamente essa relação, a mesma lógica permite compreender o que ocorreu com a moeda de 20 réis: se a procura pelo 50 réis já havia desaparecido a ponto de não justificar novas cunhagens regulares, menor ainda seria a necessidade de manter em produção uma denominação inferior, cuja utilidade prática também havia se reduzido.
As pequenas cunhagens posteriores, com o milésimo de 1935, já mencionadas nas referências de Coimbra, Prober e Romero (Confira na tabela de emissões), não caracterizam uma retomada da emissão regular dessas moedas, mas exemplares produzidos em quantidade muito limitada. Assim, a meu ver, esta reportagem confirma que, após as últimas emissões regulares das moedas de 20 réis, em 1927, e de 50 réis, em 1931, já não havia necessidade de novas emissões para essas duas denominações, corroborando a interpretação apresentada por Coimbra em seu artigo publicado na Revista de História.
Segue abaixo o Índice para os links de outros Artigos referentes ao lançamento de moedas brasileiras no blog Entusiasta em Numismática
1- Moedas do Plano Real (R$) publicado dia 8 de abril de 2018.
11- As Moedas de Réis (padrão mil-réis) lançadas entre 1918 e 1935, publicado 01 de novembro de 2026.













































