quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

As Moedas de Réis (padrão mil-réis) lançadas entre 1924 e 1930

  As Moedas de Réis (padrão mil-réis) lançadas entre 1924 e 1930

Os anos finais da República Velha foram marcados por uma tentativa desesperada de salvar o modelo agrário-exportador brasileiro, que agonizava sob pressões internas e externas. Entre 1924 e 1930, o Brasil viveu uma dualidade perigosa: de um lado, a erosão política causada pelas revoltas tenentistas; de outro, uma fragilidade econômica mascarada por reformas de estabilização que buscavam restaurar a confiança internacional, mas que se revelaram insustentáveis.

Para combater a desordem financeira, caracterizada por uma inflação alimentada por uma emissão monetária politicamente orientada e fiscalmente frouxa, os últimos governos oligárquicos adotaram medidas de rigor fiscal. Artur Bernardes (1922-1926) iniciou esse processo com uma política de contração monetária, restringindo a circulação de novos réis e cortando gastos públicos. No entanto, sua gestão foi sitiada pela política, enfrentando levantes como o de São Paulo em 1924 e a marcha da Coluna Prestes, que forçaram o país a viver sob constantes estados de sítio, expondo a fragilidade do sistema oligárquico e a insatisfação militar.

Dando continuidade ao saneamento financeiro, Washington Luís (1926-1930) buscou fixar o câmbio através da Reforma Monetária de 1926, que visava o retorno ao Padrão-Ouro. Para operacionalizar essa transição, foi criada a Caixa de Estabilização, órgão encarregado de emitir notas conversíveis em metal precioso, trazendo a previsibilidade esperada pelos investidores. Contudo, esse modelo carregava uma contradição fatal: a Defesa do Café. Enquanto tentava manter a austeridade, o governo continuava comprando excedentes da produção cafeeira para segurar os preços mundiais. Como o Estado não possuía recursos próprios para tal, dependia de empréstimos estrangeiros contínuos, tornando a estabilidade da moeda refém da liquidez internacional.

O castelo de cartas desmoronou com a Quebra da Bolsa de Nova York em 1929. O colapso global fechou as linhas de crédito e secou o mercado consumidor internacional, paralisando as exportações brasileiras. Sem crédito e sem receita, o plano de Washington Luís ruiu: o ouro da Caixa de Estabilização foi exaurido para honrar dívidas externas e o país mergulhou em uma paralisia financeira sem precedentes. Esse descalabro econômico, somado à erosão política e ao fim da "Política do Café com Leite", deslegitimou definitivamente as elites cafeeiras, servindo como o catalisador final para a Revolução de 1930 e o início da Era Vargas.

Nota:

Antes da Reforma de 1926, o Brasil vivia sob um regime de câmbio flutuante errático, em que o valor do mil-réis oscilava bruscamente conforme o desempenho das exportações, valorizando quando o café vendia bem e "derretendo" em períodos de baixa, o que gerava uma insegurança crônica para empresários que não podiam prever custos de importação. Embora o país já tivesse tentado estabilizar a moeda com a Caixa de Conversão (1906-1914) para proteger os exportadores durante as altas do café, o fechamento desse órgão na Primeira Guerra Mundial devolveu o país a um cenário de emissões descontroladas e papel-moeda inconversível, um caos que Artur Bernardes tentou conter com austeridade, mas que Washington Luís buscou solucionar definitivamente ao criar a Caixa de Estabilização para "travar" o valor da moeda e acabar com o conflito entre quem lucrava com a desvalorização e quem dependia de um câmbio forte.

A Caixa de Estabilização, criada pelo Decreto n.º 5.108, de 18 de dezembro de 1926, funcionava como uma “casa de conversibilidade” rígida que buscava controlar a inflação ao emitir papel-moeda estritamente lastreado em reservas físicas de ouro, atuando de forma análoga a um Banco Central ao fixar uma paridade cambial estável para restaurar a confiança dos investidores. Contudo, por não dispor da flexibilidade típica das autoridades monetárias modernas, como poderes de regulação bancária, redesconto, controle ativo do crédito, emissão discricionária de moeda ou ajuste de taxas de juros em momentos de escassez, o sistema revelou-se estruturalmente frágil e colapsou quando a Crise de 1929 interrompeu a entrada de capitais, forçando o governo a exaurir rapidamente as reservas de ouro disponíveis.

Do Decreto n.º 5.108, de 18 de dezembro de 1926: 

Art. 5º Emquanto não for expedido o decreto a que se refere o art. 3º, o troco das notas em ouro e do ouro em notas, na base marcada no art. 2º, será feito na Caixa de Estabilização, que, para esse fim exclusivo, ora fica creada.

     Paragrapho unico. A Caixa de Estabilização, com essa ou outra denominação, poderá ser annexada ao Banco do Brasil, logo que este seja reformado, de accôrdo com a presente lei.

Curiosamente, o Decreto n.º 5.108 também instituiu o cruzeiro como uma nova moeda cunhada em ouro, ao título de 900 milésimos. A nova moeda, porém, só foi efetivamente introduzida durante o governo de Getúlio Vargas, por meio da reforma monetária estabelecida pelo Decreto-Lei nº 4.791, de 5 de outubro de 1942. As moedas implementadas no plano cruzeiro podem ser conferidas no artigo Moedas do Plano Cruzeiro Cr$ (1942 ~1967).

O Meio Circulante 

Durante este período da república velha, o meio circulante brasileiro era composto por cédulas do Tesouro Nacional e do Banco do Brasil, além das Notas de Ouro criadas pela Reforma de 1926 de Washington Luís. Até 1923, o Tesouro era o principal emissor; entre 1923 e 1926, o Banco do Brasil deteve o monopólio da emissão após a reforma de Artur Bernardes, que o transformou em um tipo de banco central, Decreto n. 4.635-A, de 8 de janeiro de 1923, com a exclusividade de emitir papel-moeda, ainda que sob controle do Tesouro, em uma tentativa de controlar o valor da moeda. No entanto, ao assumir em 1926, Washington Luís retirou esse poder do Banco do Brasil e o centralizou na recém-criada Caixa de Estabilização. As Notas de Ouro emitidas pelo órgão possuíam valor fixo e lastro em metal, estabelecendo um sistema monetário dual que ruiu com a Crise de 1929. Isso levou Getúlio Vargas a extinguir a Caixa pelo Decreto nº 19.423, de 22 de novembro de 1930, convertendo as notas de ouro em papel-moeda comum e retomando o regime puramente fiduciário. 

Nota: O regime fiduciário não possui lastro em ouro ou em bens físicos e se sustenta em três pilares: confiança pública, poder legal e escassez controlada.

Diferente das cédulas, as moedas metálicas de circulação comum eram cunhadas pela Casa da Moeda sob autoridade exclusiva do Tesouro Nacional, servindo como meio de troca para pequenas transações, enquanto o Banco do Brasil e a Caixa de Estabilização concentravam suas operações na emissão e no lastreamento do papel-moeda.

Para as transações cotidianas, a população utilizava principalmente moedas de cuproníquel de 20, 50, 100, 200 e 400 réis, cunhadas entre 1918 e 1935. Também estavam em circulação a popular série em bronze-alumínio do Centenário da Independência, cunhada em 1922 (e, muito provavelmente, também em 1923), nos valores de 500 e 1.000 réis, além da moeda de prata de 2.000 réis, que apresentava diferentes padrões de pureza, variando entre emissões de .900 e .500.

Essas moedas conviveram com séries posteriores, como a das moedas cunhadas em 1924, apresentadas neste artigo; a das moedas Vicentinas; a dos Brasileiros Ilustres; e as moedas de réis do período de Getúlio Vargas, até serem definitivamente recolhidas com a introdução do padrão Cruzeiro, em 1942.


Notas: 

1- As moedas de cuproníquel e as da série do  1º Centenário da Independência do Brasil serão mostradas posteriormente.

2- As moedas de réis durante o Governo de Getúlio podem ser conferidas em As Moedas de Réis (padrão mil-réis) da Era Vargas.

Neste artigo, serão apresentadas as moedas de réis (padrão mil-reis) lançadas durante o período de 1924 ao período de 1930. 

Em 1924, durante o governo de Arthur Bernardes, foram cunhadas moedas de bronze-alumínio, nos valores de 500 e 1.000 réis, bem como a moeda de 2.000 réis, cunhada em prata e cobre, conforme o Decreto nº 16.409, de 12 de março de 1924, cujas características tiveram origem e/ou foram modificadas a partir das moedas emitidas em comemoração ao primeiro centenário da República, instituídas pelo Decreto nº 4.555, de 10 de agosto de 1922

O Decreto nº 16.409 faz referência à alteração de cunhos com base em características já estabelecidas em decretos anteriores. Assim, torna-se necessário examinar os atos normativos precedentes que determinaram o lançamento das moedas do Centenário da Independência, a fim de compreender a origem das características incorporadas às moedas emitidas por esse decreto.


Do Decreto nº 4.555 temos:

A mandar cunhar, no país ou no estrangeiro, moeda de aluminio e cobre, dos valores de 500 réis a 1.000 réis, destinadas á comemoração do Centenário, as quais substituirão as notas de 1$000e 2$000, que serão incineradas.

O Decreto nº 15.620, de 19 de Agosto de 1922 Autoriza a cunhagem no paíz ou, no estrangeiro de moedas de alumínio e cobre dos valores de $500 e 1$, destinadas á comemoração do Centenário da Independência.

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização constante da lei n. 4.555, de 10 de agosto corrente, art. 146,

DECRETA:

     Art. 1º Fica o ministro da Fazenda autorizado a abrir o credito de 4.800:000$. para cunhar no paiz ou no estrangeiro moedas de aluminio e cobre, commemorativas do Centenario da Independencia, com valor, peso e modulos seguintes:
Valor - Peso em grammas - Modulos em millimetros

     $500.................................................................................................................................... 4 22,5

     1$000..................................................................................................................................... 8 26,7


     Art. 2º As moedas terão uma liga, binaria composta do 91 % de cobre a 9 % de aluminio e serão serrilhadas.

     Art. 3º A tolerancia para mais ou para menos no peso e na composição da liga dessas moedas será, respectivamente, de 2% 1%.

     Art. 4º Estas moedas substituirão as notas de 1$ e 2$, que serão incineradas, feita a substituição em prazo razoavel fixado pelo Governo.

Nota: No lugar das notas de 1$ e 2$ poderiam ser usados moedas de $500 e 1$000, ex.: duas moedas de $500 para 1$000 ou 2 moedas de $1000 para 2$000 réis. 

     Art. 5º Taes moedas não serão admitidas nem na receita nem na despeza das estações publicas, nem nos pagamentos entre particulares, salvo o caso de mutuo consentimento destes, senão até a quantia de 20$000.


Lei nº 4.632, de 6 de janeiro de 1923,  publicada no [Diário Oficial da União de 07/01/1923Fixa a Despesa Geral da República dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1923. 

No art. 127, incisos nº 10 e  nº 11, temos: 


10. são apresentadas novas diretrizes para a fabricação da moeda de prata, ao prever a modificação de seu título por meio da adoção da liga empregada na moeda de prata inglesa conforme a lei The Amending Act (10 George V, cap. 3).

Nota: The Amending Act  menciona o ato legislativo que refere ao Coinage Act 1920 (Lei da Cunhagem de 1920) Entitulado como:  An Act to amend the Law in respect of the Standard Fineness of Silver Coins current in the United Kingdom and in other parts of His Majesty's Dominions. Citação: 10 & 11 Geo. 5 c. 3 

Essa lei resultou em uma drástica redução do teor de prata das moedas britânicas, anteriormente fabricadas em prata de lei (sterling silver), com pureza de 92,5%. Com o Coinage Act, a composição foi alterada para 50% de prata e 50% de outras ligas metálicas, em geral cobre.


11. A elevar a 2 % a tolerância de 1 % para mais ou para menos, permitida na liga das moedas de cobre e alumínio.


O Decreto nº 15.936, de 24 de janeiro de 1923, art. 1 e 2. Reduziu para 500 o título das moedas de prata.


O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, usando da autorização contida no art. 127, ns. 10 e 11, da lei n. 4.532, de 6 de janeiro corrente, resolve:

Nota: A lei correta é a Lei nº 4.632. O erro ocorreu, provavelmente, durante a digitalização do texto legal por meio de software de OCR (Optical Character Recognition).

     Art. 1º Fica reduzido para o titulo de 500 o titulo da moeda de prata cunhada de acordo com o art. 2º da lei numero 4.182, de 13 de novembro de 1920, e a que se refere o decreto n. 15.728, de 12 de outubro de 1922.

     Art. 2º É elevada a 2% a tolerância permitida na liga das moedas de cobre e alumínio, creadas pelo art. 146, n. 1, da lei n. 4.555, de 10 de agosto de 1922, e a que se refere o decreto n. 15.020, de 19 ddo mesmo mez.

Nota: O decreto correto é o Decreto nº 15.620.

A LEI Nº 4.783, DE 31 DE DEZEMBRO DE 1923 Orça a Receita Geral da Republica dos Estados Unidos do Brasil para o exercício de 1924.


    O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil: Faço saber que o Congresso Nacional decretou e eu sancciono a lei seguinte:

     Art. 1º A Receita Geral da Republica dos Estados Unidos do Brasil, inclusive a destinada a applicação especial, no exercicio de 1924, é orçada em 102.890:600$, ouro, e 921.898:000$, papel, e será realizada com o producto do que for arrecadado dentro do exercicio da presente lei, sob os seguintes titulos:

109. Renda de emissão de moedas metallicas subsidiarias, ficando o Governo autorizado a mandar cunhar moedas de prata, no valor de 2$, até 20.000:000$ e de cobre e aluminio, de 1$000 e 500 réis, até 15.000:000$, conservado os valores, pesos, ligas, modelos e tolerâncias, já determinados em lei, podendo alterar os cunhos atuais............................................ ................................. 35.000:000$000


O Decreto nº 16.409, de 12 de Março de 1924 Manda alterar os cunhos das moedas divisionárias de prata do valor de 2$ e de cobre e alumínio dos valores de 1$ e 500 réis.

O Presidente da Republica dos Estados Unidos do Brasil, atendendo ao que dispõe o n. 109 do art. 1º da lei n. 4.783, de 31 de dezembro de 1923, resolve:

     Art. 1º As moedas nacionaes de prata do valor de 2$ e as de cobre e aluminio dos valores de 1$ e 500 réis, que se cunharem de ora em deante conservarão o peso, liga, tolerancia e modulo já determinados em leis, e obedecerão aos característicos seguintes:

     As moedas nacionaes de 2$ terão no anverso a efigie da Republica, circundada por 21 estrellas, representando os Estados, separadas por um filete e por uma ordem de perolas; no reverso terão os ramos de fumo e café, ladeando o valor e sobre este o feixe consular, no exergo a era e no contorno a inscripção - Republica dos Estados Unidos do Brasil.

     As moedas de cobre e alumínio dos mencionados valores terão no anverso a figura de Céres, ornada por 21 estrelas, simbolizando os Estados e na frente da figura o Cruzeiro do Sul; no reverso os ramos de café e algodão, com o valor no centro, por cima a estrella da União, encimada pela palavra - Brasil, e por baixo a éra do cunho.

Notas: Em 1924, o Brasil era composto por 21 unidades federativas: 20 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão, Goiás, Mato Grosso, Amazonas e Pará e o Distrito Federal: que na época ficava no Rio de Janeiro.

Ceres e Abundantia

No livro Moedas do Brasil (2002), Eugenio Vergara Caffarelli observa que, embora tenham sido realizados ensaios com a efígie de Ceres, estes não foram aprovados, optando-se pela versão com  Abundantia, (ou Abundância). Tal conclusão fundamenta-se na análise iconográfica da figura apresentada na moeda.

No artigo “Deusas nos acudam: a divina figura nas moedas nacionais em bronze-alumínio da década de 1920”, de Leonardo Rodrigues Tupinambá, publicado no Boletim da Sociedade Numismática Brasileira (SNB) — Semestral, 2023, nº 84, ISSN 0037-8704, o autor discute as razões por trás da substituição entre as duas efígies, oferecendo uma visão geral sobre a origem e o significado das figuras retratadas e apresentando explicações para a confusão gerada pela interpretação das duas deusas nos anversos das moedas de 500 e 1000 réis.
Em uma das referências, o autor afirma que a ilustração da figura adotada como “Abundância” foi realizada por Francisco Hilarião Teixeira da Silva, citando como fonte a Revista da Casa da Moeda, v. 1, n. 4, p. 8.

Em minha opinião, essas moedas nunca tiveram qualquer intuito de mencionar  Abundância, limitando-se simplesmente a representar Ceres portando uma cornucópia. 

Na mitologia romana, Ceres, deusa da agricultura e irmã de Júpiter, personifica a dependência da terra e a provisão divina, como expresso no mito de Prosérpina, no qual seus ciclos de alegria e luto determinam a fertilidade ou a esterilidade do solo e, assim, o ritmo da vida humana. Já Abundância, identificada pela cornucópia transbordante (o lendário chifre da cabra Amaltéia, que teria nutrido o jovem Júpiter e sido dotado do poder de prover eternamente tudo o que se desejasse), afasta-se do esforço agrícola para simbolizar a distribuição generosa da riqueza, a permanência da fartura e o ideal de prosperidade e estabilidade econômica.

Essa distinção funcional entre as divindades é nitidamente observada na numismática romana, na qual as efígies funcionavam como uma linguagem visual de poder e estabilidade: as moedas com Ceres eram cunhadas para evocar a legitimidade religiosa e a fertilidade da terra, geralmente retratando-a segurando espigas, ramos de trigo e outros cereais; já as moedas com Abundância celebravam a prosperidade econômica geral, mostrando-a derramando sua cornucópia repleta de moedas ou frutos, transmitindo aos cidadãos a mensagem de que, sob o domínio do imperador, riquezas e recursos fluíam continuamente por todo o Império.



Moedas romanas: à esquerda, o denário romano em prata, produzido em 63 a.C. por L. Furius Brocchus, mostrando no anverso, Ceres com coroa de trigo, incluindo ramo de trigo (a esquerda) e sementes de cevada (a direita); à direita, o aureus romano em ouro, produzido entre 249‑251 d.C. por Gaius Messius Quintus Traianus Decius, mostrando no reverso Abundância segurando uma cornucópia. (Fontes: britishmuseum.org; en.numista.com, 2026).

Nota:  Abundância era personificada como a deusa abundancia, símbolo alegórico da prosperidade e da fartura, outra figura importante relacionada à agricultura era Annona, que personificava o abastecimento de grãos da cidade e, assim como Abundância, é considerada uma “personificação divina”, tratada como deusa em representações artísticas ou moedas, mas sem culto religioso formal.

Fora do contexto numismático, é possível observar como essas divindades são representadas em pinturas e esculturas. Em muitas obras de arte, ambas aparecem com figuras muito semelhantes, compartilhando símbolos de fertilidade e prosperidade, como espigas, frutos e, especialmente no caso de Abundância, a cornucópia, que se consolidou como seu símbolo central de fartura e riqueza, representando abundância material em sentido amplo, incluindo alimentos, moedas ou tesouros.

Especialmente na arte renascentista (séculos XIV a XVI) e barroca (séculos XVII a início do XVIII), os artistas frequentemente misturavam mitologia e alegoria, privilegiando a representação simbólica da fartura da terra mais do que a distinção rigorosa entre as divindades. Nesse contexto, o trigo associa-se mais diretamente a Ceres, como símbolo central da agricultura, das colheitas e da fertilidade da terra; em Abundância, aparece de forma secundária ou simbólica, reforçando a ideia de prosperidade sem constituir um atributo essencial. De modo semelhante, a cornucópia consolida-se como o elemento mais característico de Abundância, expressando visualmente a abundância contínua e a riqueza material, enquanto em Ceres costuma ser representada acompanhada de ramos de trigo e outros cereais, reforçando a relação com a fertilidade da terra. Dessa forma, tanto o trigo quanto a cornucópia podem surgir nas representações de ambas as deusas, dependendo da intenção simbólica do artista ou da tradição artística seguida, reforçando a ideia de fertilidade, fartura e abundância, mesmo que cada divindade possua atributos mais característicos.

Abaixo, algumas obras que podem ter gerado a interpretação de Caffarelli, seja de forma direta ou indireta, ao mostrar como as representações visuais de Ceres e Abundância, especialmente com atributos como o trigo, e a cornucópia, podem ser facilmente confundidas.

Ceres (Summer)

A pintura “Ceres (Summer)” (1712) de Antoine Watteau retrata a deusa romana Ceres como uma jovem elegante cercada por espigas de trigo e frutos, simbolizando a fertilidade e a abundância da colheita, em uma composição suave e harmoniosa.

Ceres (Summer), uma pintura de  Antoine Watteau (1712). (Fonte: wikiart.org,2026)

Abundance (Abundantia)

A pintura “Abundance (Abundantia)” (c. 1630) de Peter Paul Rubens, realizada durante o período Barroco, representa a personificação da abundância como uma mulher elegante segurando uma cornucópia transbordando frutos, simbolizando fartura e prosperidade, em uma composição marcada por gestos amplos, cores vibrantes e intensa expressividade.

Abundance (Abundantia) Peter Paul Rubensc. 1630 (Fonte: artsandculture.google.com, 2026)


Estas duas primeiras obras mostram as deusas com seus atributos mais conhecidos. As demais obras apresentadas abaixo podem gerar confusão durante sua interpretação.

An Allegory of Abundance and Peace

A pintura “An Allegory of Abundance and Peace” ou Uma alegoria da Abundância e da Paz (c. 1602) de Agostino Carracci representa a personificação da abundância, com uma figura feminina segurando ramos de trigo, simbolizando a fertilidade da terra e a prosperidade agrícola.

An Allegory of Abundance and Peace, uma pintura de Agostino Carracci (1602) (Fonte: nationalgalleries.org, 2026)

Nymphs filling the horn of plenty

A pintura “Ninfas enchendo a cornucópia” (1615) de Jan Brueghel, (the elder) o Velho representa uma alegoria da fartura e prosperidade, mostrando ninfas enchendo uma cornucópia com frutos, flores e espigas de trigo. 

"Nymphs filling the horn of plenty”, uma pintura de Jan Brueghel the Elder (1615). (Fonte: https://app.fta.art , 2026)


Ceres and Two Nymphs with a Cornucopia 

A obra Ceres e Duas Ninfas com uma cornucópia serviu de modelo para uma pintura atualmente no Museu do Prado, tendo sido oferecida por Rubens a Filipe IV em 1628. A cena, inspirada em Ovídio, representa a abundância da terra por meio da cornucópia transbordante.

Ceres and Two Nymphs with a Cornucopia — pintura de Peter Paul Rubens (c. 1617‑1627). (Fonte: Google Arts & Culture, 2026)


Ceres holding a Cornucopia

Este objeto decorativo e alegórico, produzido como um azulejo de cerâmica (buff earthenware tile), "Ceres holding a Cornucopia" (c. 1725–1750) representa a deusa romana da agricultura segurando uma cornucópia, simbolizando a fertilidade e a abundância da colheita.

Cerâmica do museu THE FITZWILLIAM MUSEUM, Ceres holding a Cornucopia. C.127‑1933. 18th century (c. 1725‑1750). (Fonte:  data.fitzmuseum.cam.ac.uk, 2026)

Nota: Esta é, particularmente, em minha opinião, a representação de Ceres que mais se aproxima dos anversos das moedas de 500 e 1000 réis de 1924.

Deusa Ceres

A obra é uma escultura de Ceres, a deusa romana da agricultura, retratada em terracota com uma postura serena que remete à figura clássica dedicada à fertilidade da terra e ao ciclo das colheitas, simbolizando a abundância agrícola e a importância dos cereais como o trigo.


PINHEIRO, Chaves. Deusa Ceres. 1872. Escultura em terracota, 126 × 40 × 40 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro. (Fonte: acervodigital.unesp.br, 2026)

Ceres/Deméter 

A estátua greco-romana Ceres/Deméter (Imperial Romano, mármore) mostra a deusa da agricultura segurando uma cornucópia repleta de frutos, simbolizando a fertilidade e abundância da terra, seguindo a tradição clássica de representação equilibrada e serena das divindades femininas.

Estatua de  Ceres/Demeter  Theoi Gallery – Greek Art Gallery (Fonte: theoi.com, 2026)

Nota: Na mitologia grega, a equivalente de Ceres era Deméter, deusa da agricultura e dos ciclos das colheitas.

Após a análise das obras de arte apresentadas, fica evidente como as representações de Ceres e da Abundância podem ser visualmente semelhantes, especialmente em razão da presença compartilhada de atributos como o trigo e a cornucópia. Essas semelhanças iconográficas, bem como o fato de outros ensaios com a efígie de Ceres terem sido rejeitados, ajudam a compreender a interpretação de Caffarelli. No entanto, o Decreto nº 16.409, de 12 de março de 1924, já citado, confirma que a efígie adotada é, de fato, Ceres. Dessa forma, apesar da ambiguidade visual explorada pelos artistas ao longo da história, conclui-se que as moedas de 1924 representam Ceres.

Moedas Emitidas pelo Decreto nº 16.409

Moeda de $500

Material: Bronze Alumínio (Liga do material 91% Cu, 9% Al).
Diâmetro:  22,5 mm
Massa:  4,00 g
Espessura: 1,50 mm
Bordo: serrilhado
Eixo: Reverso Moeda


ANVERSO: No centro, a figura de Ceres encontra-se voltada para a sua esquerda (lado direito do observador), ajoelhada, com a perna esquerda dobrada e o joelho direito apoiado no chão, quase sentada sobre o calcanhar. A mão esquerda segura a boca de uma cornucópia, enquanto a direita a sustenta. A cornucópia apresenta-se com a abertura voltada para baixo, deixando cair o que parecem ser frutos e flores. Ceres é circundada por um anel fino, aberto no exergo, acompanhado por 21 estrelas que representam os estados brasileiros. À direita da efígie, também no interior do anel, observa-se a constelação do Cruzeiro do Sul inclinada para a esquerda. No exergo, à direita, encontra-se a sigla JV, do gravador João da Cruz Vargas.

REVERSO: No centro, o valor está disposto em duas linhas paralelas horizontais: na primeira, o número 500, na segunda, a inscrição RÉIS. Acima do valor, encontra-se a estrela de cinco pontas da União. Abaixo da palavra RÉIS, dois ramos entrelaçados por um laço sobem um de cada lado, acompanhando a orla: à esquerda, o ramo de café com frutos; à direita, o ramo de algodão com flores. No alto, também seguindo a orla, está a inscrição do BRASIL e no exergo a data. Entre o início do ramo de café e o laço a  sigla JV do gravador João da Cruz Vargas.


Siglas do gravador




Siglas Apresentadas após processamento de imagem: 


A Constelação do Cruzeiro do Sul 

No anverso das moedas de 500 e 1000 réis lançadas em 1924, a constelação do Cruzeiro do Sul apresenta uma disposição distinta das demais moedas da República, nas quais a orientação da estrela Epsilon Crucis (a "Intrometida") é sempre apresentada do lado direito do eixo da constelação.

No alto, ao lado do rosto da figura de Ceres, observa-se a estrela Gamma Crucis (Gacrux), também conhecida como Rubídia, representada com seis pontas. No lado direito superior, encontra-se a Beta Crucis (Becrux ou Mimosa), com sete pontas. No lado esquerdo, ao lado do braço da figura de Ceres, está a Delta Crucis, também chamada de Pálida, com cinco pontas. Próxima ao joelho da efígie, localiza-se a Epsilon Crucis (Intrometida), conhecida como Ginan, com quatro pontas. Por fim, na parte inferior, destaca-se a Alpha Crucis, ou Estrela de Magalhães, representada com oito pontas.

Neste desenho, observamos que a representação do Cruzeiro do Sul exibida nas moedas segue a mesma orientação apresentada na Bandeira Nacional, com a estrela Epsilon Crucis posicionada à esquerda do eixo vertical. 

Um fato curioso é que a Bandeira Nacional, idealizada por Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos (com o desenho de Décio Vilares), foi concebida pelo Decreto nº 4, de 19 de novembro de 1889, para representar o céu do Rio de Janeiro no momento da Proclamação da República, correspondendo astronomicamente à configuração das estrelas às 8h30 do dia 15 de novembro de 1889.



Protótipo da bandeira nacional,  com 21 estrelas representando os estados brasileiros em quadro pintado pelo artista Décio Villares. (Fonte: https://www.folha2.com.br/)

Nessa representação, as constelações foram desenhadas sob a premissa de uma vista de um observador situado fora da esfera celeste. Tecnicamente, isso exige uma inversão especular (espelhada) das constelações em relação ao observador situado na Terra; ou seja, a disposição dos astros na Bandeira do Brasil aparece invertida da direita para a esquerda.

Contudo, a definição formal de que as estrelas devem ser vistas por um observador situado fora da esfera celeste (no infinito) só foi introduzida na legislação brasileira décadas depois, por meio da Lei nº 5.700, de 1º de setembro de 1971.

Da Lei nº 5.700, no artigo 3º conferimos:

Parágrafo único. Na Bandeira Nacional está representado, em lavor artístico, um aspecto do céu do Rio de Janeiro, com a constelação "Cruzeiro do Sul" no meridiano, idealizado como visto por um observador situado na vertical que contém o zênite daquela cidade, numa esfera exterior à que se vê na Bandeira.

Posteriormente, o artigo 3º teve seu texto alterado  pela  LEI No 8.421, DE 11 DE MAIO DE 1992 de acordo com o inciso 

§ 1° As constelações que figuram na Bandeira Nacional correspondem ao aspecto do céu, na cidade do Rio de Janeiro, às 8 horas e 30 minutos do dia 15 de novembro de 1889 (doze horas siderais) e devem ser consideradas como vistas por um observador situado fora da esfera celeste.

Em contraste, no Brasão de Armas do Brasil, a constelação do Cruzeiro do Sul é apresentada com a estrela Epsilon Crucis no lado direito do observador. Sob a concepção heráldica, essa representação mantém a estrela à destra do eixo vertical, preservando a orientação astronômica real de quem observa o firmamento a partir do solo brasileiro, diferenciando-se da visão de "globo invertido" adotada no pavilhão nacional.



 Armas Nacionais (Fonte: Wikipedia, 2026)


Considerando os elementos apresentados, levanta-se a hipótese de que, nas moedas de Ceres, cunhadas durante o governo de Arthur Bernardes, tenha sido utilizado o Cruzeiro do Sul conforme representado na Bandeira Nacional (com a estrela Epsilon Crucis à esquerda), enquanto a produção das demais moedas republicanas que exibiram essa constelação seguiu a orientação do Brasão de Armas (com a estrela Epsilon Crucis à direita).

Ao observar novamente este anverso, podemos sugerir que a deusa Ceres contempla o Rio de Janeiro, dirigindo o olhar sobre o aglomerado de estrelas, incluindo a constelação do Cruzeiro do Sul, a partir de um ponto de vista externo à esfera celeste, tal como na concepção idealizada do Pavilhão Nacional.

Nota: Sob a perspectiva da heráldica aplicada às Armas Nacionais, conforme explicam autores clássicos como o Marquês de Abrantes, as direções são definidas a partir da posição de quem porta o escudo, e não de quem o observa. Assim, o lado direito do observador corresponde, na realidade, à sinistra (esquerda) do escudo, enquanto o lado esquerdo do observador corresponde à destra (direita). Pode-se afirmar, portanto, que foi adotada a mesma concepção de orientação tanto no Brasão de Armas quanto no Pavilhão Nacional: em ambos os casos, a estrela Epsilon Crucis situa-se na sinistra, unificando a lógica de representação dos dois símbolos sob diferentes perspectivas técnicas.


Moeda de 1$000

Material: Bronze Alumínio (Liga do material 91% Cu, 9% Al).
Diâmetro:  26,7 mm
Massa:  8,00 g
Espessura: 2,10 mm
Bordo: serrilhado
Eixo: Reverso Moeda


ANVERSO: No centro, a figura de Ceres encontra-se voltada para a sua esquerda (lado direito do observador), ajoelhada, com a perna esquerda dobrada e o joelho direito apoiado no chão, quase sentada sobre o calcanhar. A mão esquerda segura a boca de uma cornucópia, enquanto a direita a sustenta. A cornucópia apresenta-se com a abertura voltada para baixo, deixando cair o que parecem ser frutos e flores. Ceres é circundada por um anel fino, aberto no exergo, acompanhado por 21 estrelas que representam os estados brasileiros. À direita da efígie, também no interior do anel, observa-se a constelação do Cruzeiro do Sul inclinada para a esquerda. No exergo, à direita, encontra-se a sigla JV, do gravador João da Cruz Vargas.

REVERSO: No centro, o valor está disposto em duas linhas paralelas horizontais: na primeira, o número 1000, na segunda, a inscrição RÉIS. Acima do valor, encontra-se a estrela de cinco pontas da União. Abaixo da palavra RÉIS, dois ramos entrelaçados por um laço sobem um de cada lado, acompanhando a orla: à esquerda, o ramo de café com frutos; à direita, o ramo de algodão com flores. No alto, também seguindo a orla, está a inscrição do BRASIL e no exergo a data. Entre o início do ramo de café e o laço a  sigla JV do gravador João da Cruz Vargas.


Siglas do gravador


Siglas Apresentadas após processamento de imagem: 



Moeda de 2$000

Material: Bronze Alumínio (Liga do material 50% Ag,  50% Cu).
Diâmetro:  26,00 mm
Massa:  8,00 g
Espessura: 1,80 mm
Bordo: serrilhado
Eixo: Reverso Moeda

ANVERSO: No centro, dentro de um círculo, a figura feminina da República em perfil, olhando para o seu lado esquerdo (lado direito do observador) ostenta um barrete frígio adornado com uma palma de louro. Ao longo da orla, acompanham-na vinte e uma estrelas de cinco pontas.

REVERSO: No centro,  o valor está disposto em duas linhas paralelas horizontais: na primeira, o número 2000, na segunda, a inscrição RÉIS. Acima do valor, encontra-se o feixe consular  representado por um feixe de varas em pala. Abaixo da palavra RÉISdois ramos entrelaçados por um laço sobem um de cada lado, acompanhando a orla: à esquerda, o ramo de café com frutos; à direita, o ramo de tabaco com flores. Acompanha a orla a legenda REPUBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL. Com as palavras maiúsculas "DOS"  e "DO" em tamanho inferior. No exergo, a data. À direita, entre o ramo de tabaco e o Laço, a sigla JV do gravador João da Cruz Vargas.


Sigla do gravador 


Sigla Apresentada após processamento de imagem: 


Notas: 

Segundo Caffarelli, nas moedas de prata de 2.000 réis havia a presença de uma quantidade ínfima de ouro, conforme indicado pela análise nº 6.517, realizada pelo Laboratório Químico da Casa da Moeda em 4 de maio de 1935. O autor afirma ter extraído essa informação a partir de uma análise de uma amostra de 2.000 réis do ano de 1924, na qual a composição da liga teria sido de 79,30% de prata (Ag), 0,15% de ouro (Au) e 20,55% de cobre (Cu), com traços de ferro, segundo dados publicados no Boletim da Sociedade Numismática Brasileira, nº 30, p. 341.

Isto não parece fazer muito sentido. Mesmo considerando a presença de pequenas quantidades de ouro, o teor de prata em massa ficaria muito acima do previsto pelo Decreto nº 15.936. Além disso, no artigo "Uma Abordagem Experimental via Método Hidrostático através do Princípio do Empuxo de Arquimedes para moedas compostas de liga de prata e cobre, uma Importante Ferramenta de Análise para a 2000 réis de 1922", realizei medidas de teor de prata em várias amostras, incluindo a moeda de 2.000 réis de 1924. No experimento, o teor de prata foi estimado em aproximadamente 0,46. Considerando o peso total da moeda (7,837 g) e o teor de prata de 79,30% indicado na análise citada, a massa de prata corresponderia a cerca de 6,21 g, implicando um teor significativamente superior a 0,50, valor incompatível com o obtido experimentalmente, mostrando que a presença de ouro não justificaria essa discrepância. Para esclarecer a questão, seria interessante consultar o Boletim da Sociedade Numismática Brasileira de São Paulo, nº 30, para verificar diretamente o que está registrado, caso alguém tenha acesso e queira compartilhar.

O feixe de varas em pala

O desenho do feixe de varas em pala é uma representação vertical de hastes entrelaçadas e firmemente atadas por correias. Essa imagem remonta aos fasces lictoris da Roma Antiga, embora a versão original romana incluísse um machado inserido no feixe, simbolizando o poder de vida e morte. Historicamente, esses objetos eram conduzidos pelos lictores, servidores públicos civis romanos que atuavam como guarda-costas e assistentes de magistrados detentores de imperium (autoridade legal), como cônsules e pretores, e simbolizavam o poder coercitivo do Estado, inclusive por meio do uso das varas como instrumento de castigo corporal. 

Essa iconografia personifica a máxima de que a união das hastes confere ao conjunto uma força praticamente inquebrável, estando na gênese da palavra italiana fascio (feixe). É precisamente esse simbolismo de autoridade e disciplina que fundamenta o termo jurídico “Vara”, adotado até hoje para designar as divisões de primeira instância da Justiça brasileira. A denominação deriva do objeto físico que representava o poder do magistrado de aplicar a lei e manter a ordem.

Fasces lictoris, feixe de varas associado à autoridade dos magistrados da Roma Antiga. (Fonte: Wikipedia, 2026)

No século XX, essa mesma simbologia de união e autoridade estatal foi apropriada pelo regime de Benito Mussolini, na Itália, que adotou o fascio como ícone central de seu movimento político, dando origem ao termo fascismo.

*O feixe de varas em pala também foi adotado no reverso das moedas de 400 réis de 1914 (pescoço baixo e pescoço alto).

O artigo "Fasces em moedas: da Roma Antiga ao século XX", de Lucas Hendricus Andrade Van den Boomen, publicado na Revista Numismática Brasileira (RNB), Semestral, Vol. XXIV, Nº 2, 2020 (ISSN 2675-0155), analisa como o feixe em pala consolidou-se como um importante símbolo utilizado na numismática mundial.


Tiragem das Moedas emitidas pelo pelo Decreto nº 16.409


*
Segundo Caffarelli, as moedas de 500 réis encontradas nas eras de 1926 e 1929 eram falsas.
**Baixa Tiragem


Moedas de Baixa Tiragem emitidas pelo pelo Decreto nº 16.409

Moedas de 500 réis da Era de 1930 e moedas de 1.000 réis das Eras de 1929, 1930 e 1931.

Reverso:
Anverso: 

Moedas de 2.000 réis das Eras de 1925, 1927, 1931 e 1934.

Reverso:

Anverso: 



Nota: As características (diâmetro, peso e espessura) apresentadas nas moedas de 500, 1.000 e 2.000 réis foram mantidas nas moedas de 1932 da série Vicentina, lançada durante a Era Vargas, preservando-se a mesma composição metálica de bronze-alumínio nas moedas de 500 e 1.000 réis (91% Cu e 9% Al). Já a composição metálica dos discos da moeda de 2.000 réis passou de liga binária (50% Ag e 50% Cu) para liga quaternária (50% Ag, 40% Cu, 5% Ni e 5% Zn).

Curiosidades.:

Na 2ª parte do catálogo Moedas do Brasil – Cupro, Alumínio, Aço Inox – Ensaios e Provas, 4º volume (1993), de Marcelo Rocha Borges, são apresentados diversos ensaios com a efígie da deusa Ceres, e a efígie da República, que foram reprovados, mas que podem ter servido como base para os cunhos adotados nas moedas de 500, 1.000 e 2.000 réis em 1924.

Dentre eles podemos observar:


1000 réis 1924 com a efígie de Ceres

Neste ensaio, a figura de Ceres é apresentada em pé, trajando túnica fluida. Sustenta com o braço esquerdo a cornucópia transbordando frutos e, com a mão direita, um feixe de espigas de trigo. A composição enfatiza atributos agrícolas e simboliza fertilidade, abundância e prosperidade, características tradicionais associadas à deusa romana da agricultura.


  
Ensaio 1000 réis 1924 com efígie da República,


Neste ensaio, o anverso apresenta a efígie alegórica da República em perfil, voltada para a direita (à esquerda do observador), portando, ao que parece, ramos de louro, enquanto o reverso exibe ramos de café e tabaco.



Ensaio 1000 réis 1924 com efígie da República,

Neste ensaio o reverso apresenta ramos agrícolas estilizados, tradicionalmente interpretados como café e fumo, símbolos da produção e riqueza nacional.


Ensaio 1000 réis 1924

Neste ensaio, o anverso traz a alegoria de Ceres, com a inscrição “Brasil” no exergo.


 
Ensaio 2000 réis 1914

Aqui, a deusa Ceres aparece pela primeira vez, sugerindo que essa iconografia já figurava nos projetos da Casa da Moeda havia pelo menos dez anos. Neste ensaio, a ε (épsilon) Crucis encontra-se posicionada à direita, a visão sobre a constelação do Cruzeiro do Sul era a mesma que a de um observador na Terra. No exergo, consta a inscrição “Brasil”. 


Ensaio 2000 reis 1923, com a Efígie da República

Neste ensaio temos o reverso da moeda de 2000 réis com o anverso apresentando  Ceres também abraçando a cornucópia. 


Ensaio 2000 reis 1923, com a Efígie da República

Neste ensaio o anverso apresenta a efígie alegórica da República em perfil olhando para o seu lado direito, (lado esquerdo do observador), circundada por 21 estrelas.

Ensaio 2000 reis 1923, com a Efígie da República.

Neste ensaio, a efígie da República apresenta-se portando manuscrito com a inscrição “LEX”. Na orla superior, dispõem-se 21 estrelas circundantes. O termo Lex vem do latim e significa "lei".



A Cunhagem de Moedas Falsas, 

Livros e documentos numismáticos registram desde sempre a existência de moedas falsas, e no Brasil não foi diferente: desde o período colonial, com moedas portuguesas e locais, passando pelo Império e chegando à República, até alcançar as moedas atuais do Plano Real (verifique o texto "Moedas Falsas do Real"), a falsificação acompanhou diferentes épocas e tipos de moeda. Durante a República Velha, isso não foi diferente: como já explicado por Caffarelli, as moedas de 500 réis emitidas nos anos de 1926 e 1929 eram falsas. O catálogo Moedas do Brasil também menciona essas peças, mostrando imagens das moedas cunhadas em latão.

A reportagem "Fabricavam Dinheiro Falso", do jornal Correio da Manhã de 30 de setembro de 1934, relata como falsificadores repassavam mais de mil moedas para o comércio e como fabricavam moedas de 1.000 réis no porão de uma casa nos subúrbios do Rio de Janeiro. 



Seguem trechos da reportagem: 



Nesta reportagem, foi relatada a falsificação de moedas de 1$000, $500 e $200.


Neste trecho é mencionado como o local da fábrica era suspeito:


Como a oficina foi instalada: 


Trechos de reportagem Fabricavam Dinheiro Falso do jornal Correio da Manhã de 30 de setembro de 1934  (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2025)

Abaixo, podemos ver uma amostra de moeda falsa com a data de 1925, ao lado de uma peça genuína.
À esquerda, verificamos o anverso e o reverso de uma moeda verdadeira, enquanto à direita observamos a moeda falsa. Os detalhes dos elementos de design são bastante diferentes, com traços mais grossos, impressão fraca dos desenhos e ausência de certos elementos de composição. Nota-se também menor definição nos relevos, irregularidade na borda e acabamento inferior no campo da moeda, características que facilitam a identificação da peça apócrifa quando comparada ao exemplar autêntico.


Anverso:


Reverso: 

No anverso e no reverso, o exemplar genuíno apresenta relevo bem definido, detalhes nítidos e acabamento uniforme, evidenciando a precisão da cunhagem oficial. As inscrições, figuras e elementos decorativos, como a efígie de Ceres no anverso e os ramos de café e tabaco no reverso, são claramente visíveis e possuem contornos precisos.

Em contraste, a moeda falsa revela desgaste irregular, perda significativa de definição nos traços e superfície áspera ou granulada. No anverso, os detalhes da efígie e das estrelas aparecem borrados, com relevos menos destacados. No reverso, folhas e números apresentam-se imprecisos e desgastados de maneira desigual. Essas características indicam fabricação não oficial, possivelmente por fundição ou cunhagem de baixa qualidade, comprometendo a fidelidade e a durabilidade da peça.

Esta moeda falsa foi encontrada durante um garimpo, em moedas antigas, o que foi uma surpresa, peças de 1000 réis no geral, são bastante difíceis de serem encontradas pois muitas acabam sendo derretidas para fabricar alianças de baixo custo. 

Peças falsas desta época são constantemente oferecidas em sites de leilão. Muitas vezes encontro uma uma amostra da moeda de 1000 réis de 1927. 

Um fato que pode ter contribuído significativamente para o uso dessas moedas era, simplesmente, a escassez de numerário em circulação. Em muitas reportagens da época, mencionava-se a cobrança de ágio nas transações cotidianas: para se conseguir troco, frequentemente pagava-se um valor superior ao nominal da quantia pretendida. Essa falta de moeda divisionária acabava incentivando a aceitação e a permanência dessas peças no comércio, mesmo quando sua legitimidade era questionável.

Na reportagem “Casa da Moeda”, publicada no jornal O Jornal em 17 de agosto de 1923, comenta-se que a Casa da Moeda estava desaparelhada para o desempenho de seus fins e menciona-se o déficit de troco no Brasil. Informava-se que, enquanto 80.000:000$ em moedas de prata e 30.000:000$ (30 mil contos de réis) em moedas de níquel haviam desaparecido, entre 50.000:000$ e 60.000:000$ (60 mil contos de réis) em cédulas foram dilacerados. Por sua vez, a produção da Casa da Moeda não ultrapassava 5.000:000$ (5 mil contos de réis) anuais.


Trecho de reportagem “Casa da Moeda”, publicada no jornal O Jornal em 17 de agosto de 1923  (Fonte: memoria.bn.gov.br, 2025)
 


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